

DOZE HORAS DE TERROR

Marcos Rey



Quanto  Lena, a esteticista, logo regressou ao instituto com seu amado Cae, no querendo mais nem ouvir falar de Miguel. Ruth tornou a ocupar seu apartamento assim
que soube que a polcia exterminara a quadrilha. E voltou tambm para seu trabalho, no teatro, com entusiasmo renovado. s vezes visitava Miguel no presdio. Sempre
com menor freqncia.
Jlio retornou  Serra Branca aps a primeira visita ao irmo. Queria que os pais soubessem por ele prprio o rumo que Miguel dera  sua vida. Mas subtraiu da narrativa
os episdios mais terr veis. Os pais lhe fizeram um pedido: que no retornasse  capital pelo menos enquanto Miguel continuasse preso. No respondeu nem que sim 
nem que no. A cidade tem m.
A respeito dos quinhentos mil dlares ningum abriu o bico. Quem se referisse a eles mais agravaria a condenao. Miguel soube do destino do dinheiro por Jlio, 
que o visitou. No deu nenhuma risada. Pensava s na liberdade.
- Ainda gosta de Ruth? - Jlio perguntou.
- Virei a pgina - respondeu Miguel. - J lhe causei muitos dissabores. Agora s me preocupo com uma coisa: sair daqui de qualquer jeito.
Era verdade. Meses depois participou de uma tentativa coletiva de fuga, foi baleado e morreu.
Certo dia Ruth leu no jornal que em determinada favela, prxima daquela pr-escola e creche municipal, a polcia vinha encontrando muito txico entre os moradores. 
Traficantes viviam por l, rodeando principalmente os menores. O dinheiro est retornando para as mos dos bandidos. Dlares comprando drogas, imaginou Ruth. Aos 
poucos vai voltar todo para eles.
Alguns meses depois da morte de Miguel, ao chegar ao apartamento, Ruth encontrou um recado que dizia:
Vim visit-la. Volto mais tarde. Tia Conceio. Que brincadeira era aquela?
Meia hora depois tia Conceio chegava. Com duas malas. Voltava do interior e com boa cara.
- Ol, Ruth! - Ol!
- O que diz da gente dar um passeio? Estou com saudade desta cidadona.
- No j - respondeu ela, muito feliz, abrindo os braos para Jlio. - Estou muito carente, titia.
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Apesar de seu estado, o atnito Geovani tentou perseguir os moleques.
- No que est pensando?
- Quando Miguel souber que os meninos de rua roubaram a valise vai enlouquecer ... - disse Jlio.
- Enlouquecer ou rir?
- Sei l. - Jlio pegou no brao de Ruth. Como ela era linda ao amanhecer!
- Para onde estamos indo?
- Mais uma vez no sei para onde estamos indo.
- O que diz de tomarmos uma grande xcara de caf com leite, po bem quente e manteiga? No h forma melhor de comear o dia - ela sugeriu.
- Vai ser a melhor coisa das ltimas doze horas - concordou Jlio.
i6 e OUTRAS HORAS E OUTROS DIAS
A polcia agiu depressa e, graas  agenda de Miguel, desbaratou a quadrilha de narcotraficantes. Alguns figures importantes foram detidos, como sempre nesses casos, 
e tambm como sempre no se sabe se todos continuaro atrs das grades.
Ludmila, a mulher de cabelos vermelhos, e Geovani foram identificados no mesmo dia como dois dos elementos da gangue. J tinham uma longa histria de crimes. Constou 
que ambos se desentenderam e que morreram numa troca de tiros.
A doutora, a gorda, foi socorrida tarde demais. Morreu de hemorragia.
O fato de ter em seu poder uma agenda de nomes e endereos dos membros de toda a quadrilha no salvou Miguel da cadeia. Afinal ele no a entregara  polcia, embora 
mentisse ser essa sua inteno. Foi condenado a alguns anos de priso.
Rita, a baiana, desta vez no conseguiu convencer ningum de que seu estabelecimento nada tinha a ver com venda de txicos. Foi para trs das grades, cozinhar para 
detentos.
Ana, a dona do Yellow Mountain, e o sacristo, ambos apunhalados pela mulher de cabelos vermelhos, tiveram sorte. Depois de longo perodo de hospitalizao, salvaram-se. 
Mas Lucas no conseguiu provar que estava regenerado nem valeu de coisa alguma a palavra de Miguel e do padre da igreja. Foi condenado.
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Ele riu:
- Eu, planejando? Por que voc foi  igreja, ao baileco e  casa da massagista sozinha?
- Por qu?!
- A gente esteve o tempo todo com a mesma idia na cabea, no  verdade? Passar a turma pra trs.
Ludmila no disse que sim, mas admitiu:
- Bem, a gente pode pensar nisso... No  muito para se dividir com todos.
- Mas h um porm - disse o grandalho. - Porm?
- Tambm  pouco dinheiro pra dividir por dois. - 0 qu?
- Isso mesmo. Vou ficar com ele todo. - E atirou duas vezes. L de cima Ruth e Jlio viram quando a mulher de cabelos vermelhos caiu e Geovani pegou a sacola. Depois 
ele sacudiu a mo em despedida para a mureta e se voltou na direo do porto. Ia embora. Mas Ludmila no estava morta. Um revlver brilhou em sua mo e ela atirou. 
0 gigante, um alvo para cegos, foi acertado nas costas e cambaleou. Mas no caiu. Voltou-se e deu na ex-parceira um tiro de misericrdia. E saiu com a sacola.
- Ela acertou? - perguntou Ruth. - No sei.
- Acho que acertou.
- Mas o desgraado est levando o dinheiro! Vamos descer. - No podemos ser vistos aqui.
Desceram. A primeira coisa que Jlio fez foi enfiar o revlver bem fundo no banco de areia da gurizada. Viram a mulher de cabelos vermelhos estrebuchada perto de 
uma gangorra. Morta era ainda mais bruxa. Saram.
Geovani caminhava pela rua com a sacola, mas grogue, ziguezagueando como algum que bebera a noite inteira. Dava para perceber uma mancha de sangue em suas costas.
- Ela acertou, sim - confirmou Ruth. - , acertou.
Pessoas que passavam observavam Geovani, antevendo sua queda. Algumas riam. Parecia mesmo bebedeira.
Ele seguia com dificuldade na direo do carro.  distncia Ruth e Jlio o acompanhavam.
dinheiro
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- Ouviu o que ele falou? - lembrou Jlio. - Vai dizer  quadrilha que ns fugimos com o dinheiro.
- Dir tambm que baleamos ele e a mulher.
- Teremos de continuar fugindo. E sem dinheiro.
Agora um grupo de meninos maltrapilhos, uma pivetada atrevida, caminhava ao lado de Geovani. Divertiam-se com seus passos trpegos, cada vez mais lentos.
J era manh e muita gente estava na rua. Trabalhadores iam para o servio. Acenavam e corriam atrs dos nibus. Subitamente aconteceu um imprevisto que deixou pasmos 
Ruth e Jlio.
Um dos meninos, justamente o menor, de no mximo dez anos, que usava um gorro verde, arrebatou a sacola milionria de Geovani e logo passou para outro, maior, que 
caminhava pouco  frente. Este atirou a sacola, como num lance de basquete, para um terceiro. No mesmo instante, o bando, dispersando-se, disparou pela rua a toda 
velocidade. Apesar do seu estado, o atnito Geovani perseguiu os moleques, sofrendo e desequilibrandose a cada passo.
No foi longe: estatelou-se na calada.
Jlio e Ruth aproximaram-se dele. Seu vasto palet estava todo vermelho. Transeuntes rodearam o corpo formando um crculo crescente. No tardou a chegarem dois policiais 
fardados. Um deles abaixou-se e pegou o pulso do traficante.
- Este homem est morrendo - disse.
- Veja o buraco no palet. Deve ter sido um assalto.
Jlio e Ruth foram se afastando, lentamente. No havia ou no sabiam o que dizer. Nem seguiam qualquer rumo. Apenas andavam. 0 prprio medo evaporara  luz da manh.
- Perdemos o dinheiro mas estamos vivos - disse Ruth apenas para dizer alguma coisa.
.
- Pode ter sido bom assim, o melhor fim para isso. - Pode.
Andaram mais.
- 0 que voc vai fazer? - perguntou Ruth. - No sei. E voc?
- Vou esperar o rdio e os jornais darem notcias de MiguelJlio enrugou a testa.
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- Isso vamos investigar - disse o policial. - Mas voc deve estar bem encrencado.
- E o que acontecer comigo?
- Vai ser transferido para um hospital de segurana. Talvez ainda hoje.
0 pensamento de Miguel voltou-se para Ruth e Jlio. Onde estariam? A salvo, com os dlares, ou em perigo?
AFINAL DIANTE DE GE0 VANI E DA RUIVA
Jlio e Ruth viram um carro pequeno parando na praa diante da pr-escola. A mulher que desceu dele j conheciam: a de cabelos vermelhos. Sem trocarem palavra, viraram-se 
para cor rer em sentido contrrio. L adiante parou outro carro e dele saiu um homem forte de culos escuros.
- Geovani! - exclamou a moa.
E os dois, cada um de seu lado, caminhavam na direo deles. Era um cerco.
Foi Ruth que teve a iniciativa de correr para o galpo da pr-escola. Jlio acompanhou-a. No havia mesmo outro lugar para fugirem. A porta de madeira do estabelecimento 
pblico, Ruth j notara, estava apenas encostada, assim deixada talvez por um guarda-noturno. Entraram precipitadamente.
Visto por dentro o espao era enorme, mas no totalmente escuro porque possua alguns janeles laterais. Viram escorregadores para crianas, bancos de areia, balanos 
e duas gangorras. No fundo, num praticvel, um palquinho com microfone cheio de bonecos de diversos modelos e tamanhos. Ao lado do palquinho subia uma escada em 
espiral, muito estreita, a que nenhum gorducho poderia ter acesso. A espiral levava a um elevado de uso dos iluminadores e tcnicos para a apresentao de espetculos 
infantis. A parafernlia de iluminao, holofotes, refletores e spots, estava toda ali, ligada por muitos metros de fios.
Ruth e Jlio subiram para o elevado protegido por uma mureta de madeira. Abaixaram-se, a moa j tirando a arma da sacola. Logo ouviram passos. Ludmila e Geovani 
entravam tambm correndo.
- Est vendo eles? - perguntou a mulher com voz cava. - No.
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- S podem estar l em cima.
Para Jlio pareceu o fim de tudo, mas Ruth, indo de joelhos, aproximou-se da extremidade do elevado, onde terminava a escada, e gritou:
- Se subirem, atiramos.
A escada em espiral era devassada e os dois traficantes ignoravam se de cima seria fcil ou no alvej-los. Desceram, em retirada, fazendo muito rudo nos degraus.
Ao chegar ao solo Ludmila e Geovani esconderam-se atrs dos escorregadores e comearam a atirar. Verdadeira fuzilaria. Lascas da madeira da mureta voavam. Logo estourou 
um holo fote. Um dos refletores de iluminao despencou do alto fazendo um rumor multiplicado pelo eco.
Ruth ficou apavorada. Mostrou para Jlio. - Buracos. As balas furam a madeira.
Deitaram-se, bem estendidos, mas isso no os protegia totalmente. Um buraco de bala foi aberto a centmetros da cabea de Ruth. De repente outro, enorme, surgiu 
entre os dois, como se a mureta fosse de papelo. No dava para resistir mais.
Ento Ludmila comeou a subir os degraus.
- Me d esse revlver - disse Jlio, pegando o revlver de Ruth. E do topo da escada atirou segurando a arma com as duas mos.
0 tiro no acertou o alvo mas a mulher de cabelos vermelhos desceu precipitadamente.
- Vou jogar o dinheiro - decidiu Ruth. No havia outra coisa a fazer.
- Jogue - concordou Jlio.
- Vamos jogar a sacola - gritou Ruth para os traficantes. - Muito bem, jogue - respondeu Geovani. -  s o que queremos.
Ruth pegou na ala da sacola e a jogou para baixo. Ela e Jlio ficaram espiando pelos buracos das balas.
Quem adiantou-se para apanhar a sacola foi Ludmila. - Vamos acabar com eles? - perguntou a mulher.
- No - disse Geovani, aps uma pausa. - Nada disso. Para a turma constar que fugiram com o dinheiro.
Ela estranhou:
- 0 que est planejando?
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- Vamos ver quantas balas tem? - Deve estar com o tambor cheio. A moa admirou-se:
- Jlio, tem uma s! - Uma bala s?
- Veja - disse mostrando o tambor.
- Ah, talvez por isso que a gorda estivesse to nervosa. Se precisasse puxar o gatilho no poderia errar o tiro...
Jlio sorriu:
- Ainda bem que estamos longe deles. Imagine enfrentar aqueles caras com uma s bala no tambor.
- Nem pensar.
- No estou vendo txi algum - disse Jlio. - Tambm a essa hora.
- Que horas so?
- Olhe l o relgio eletrnico. Seis horas da matina!
15 1 SEIS HORAS DA MATINA
Miguel acordou no leito do hospital sentindo uma presso maior no brao. Ouviu:
- J passou o efeito da anestesia.
No quarto estavam o mdico, bem prximo dele, o enfermeiro que j conhecia, e uma pessoa, mais recuada, que no conseguia identificar. 0 mdico sorriu:
- Foi tudo bem. Meia hora na mesa. - Vou ficar com o brao em ordem? - Vai, mas daqui um ms mais ou menos. A pergunta seguinte era muito importante: - Quando posso 
sair do hospital?
0 mdico embaraou-se um pouco.
- Bem... Daqui poderia sair em dois dias.
A pessoa ainda no identificada, um homem magro, vestido modestamente, com a gravata mal ajeitada no colarinho, aproximou-se. Trazia uma caderneta na mo. Miguel 
a reconheceu.
- Isto  seu? - o homem perguntou. -  - respondeu Miguel.
- Aquela mulher veio para pegar isso?
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- Suponho que sim - respondeu Miguel, j tentando adivinhar as perguntas seguintes para formular respostas pouco comprometedoras.
- Que endereos so esses? Miguel hesitou.
- Ele  um agente da polcia - esclareceu o mdico. - Endereos de traficantes de txicos e viciados.
- 0 que voc fazia com ela? - perguntou o policial. Miguel perdera sangue, mas no a esperteza:
- Pretendia entregar  polcia. - Por isso o balearam?
- Por isso me balearam.
- Ento no foi bala perdida?
- Nas circunstncias eu no podia dizer outra coisa - respondeu Miguel, como se pedisse compreenso.
0 policial j estava de posse de outras informaes.
- 0 ferimento que sofreu teria algo a ver com um tiroteio numa galeria?
- Foi l que me alvejaram - confessou Miguel. - E a sua arma?
- 0 qu?
- Perguntei onde est sua arma.
Dizer que a entregara ao maninho? Nunca. - Eu estava desarmado.
- Mas houve um morto.
- Houve? Naquela escurido no vi nada. Fiquei escondido algum tempo enquanto atiravam. Nem sei quantos homens eram, se dois ou trs... Quando percebi que um deles 
estava ferido, escapei. - Por que quiseram mat-lo?
- Por causa dessa agenda. Sabiam que eu ia fazer alguma coisa com ela.
- Ento voc pertencia  quadrilha?
- Pertencia... Mas rompi e comecei a organizar essa agenda. 0 policial no nascera ontem.
- 0 motivo desse ajuste de contas foi s esse? - Foi.  o que eles chamam queima de arquivo.
Miguel sabia que se prendessem Geovani ou Ludmila surgiria logo o caso dos quinhentos mil dlares e ele se comprometeria muito mais. Tudo passaria  polcia como 
simples contenda entre traficantes.
- Por favor, podia me dar informaes sobre um rapaz, chamado Miguel, que foi internado esta noite? - Ao ouvir, do hospital, uma pergunta complementar, acrescentou: 
- Um que levou um tiro no ombro. - Depois de alguma espera, doda para ela e para o parceiro, com mais segundos do que cabem num minuto, recebeu a informao, disse 
um sim e desligou.
- 0 que disseram? - perguntou Jlio.
- Que s daro a informao pessoalmente. Jlio esfriou.
- Querem que a gente v at l...
- Parece que j sabem quem Miguel  - considerou Ruth. Leria comeou a buzinar insistentemente.
Os dois foram apagando luzes e saindo da casa. Levavam o papagaio, que aps tanta agitao mais parecia um p de couve. A ltima visita foi ao quarto externo onde 
estavam a bolsa a tiracolo de Ruth e a valise dos quinhentos mil dlares.
0 carro j estava diante da casa, uma mancha mais escura na neblina. Cae foi posto na parte traseira.
- Posso dar uma carona a vocs, mas no para longe - ofereceu Lena.
- A gente aceita - disse Jlio.
Os dois olharam para a casa como se jamais fossem esquecla e entraram no carro, que partiu.
No perceberam que parados no mesmo quarteiro havia dois carros. No da frente, o pequeno, estava Ludmila. No de trs, de luxo, Geovani.
UMA SO BALA NO TAMBOR
Enquanto viajavam no carro de Leria, Ruth foi assaltada por um receio que logo comunicou a Jlio:
- Pensou se a polcia nos pegar e encontrar voc com o revlver de Miguel? 0 revlver que ele usou na galeria?
- No tinha pensado nisso.
- Para nos defender, dentro da casa de Leria, tudo bem. Ia ser necessrio. Mas andar com ele pela rua acho um perigo. Que um levasse um revlver ainda v l. Mas 
os dois...
- Ruth tem razo - opinou Leria. - Vou me livrar dessa arma.
- Livre-se j.
- Primeiro vou esvaziar o tambor. - Jogue as balas pela janela.
- Estou jogando.
- Quando Leria parar no prximo sinal, saia e atire o revlver com fora no telhado de uma casa.
Ao chegarem no farol, Leria parou o carro e Jlio abriu a porta. 0 quarteiro era todo de casas baixas. No precisaria ser um atirador de dardo. Fez com o brao 
um movimento de mani vela e lanou a arma o melhor que pde. Logo ouviram o baque do revlver e de seu deslizar sobre as telhas.
- Perfeito, Jlio! - disse Ruth.
0 rapaz tornou ao carro, posto em movimento imediatamente por Leria. Ela queria deixar depressa aquele episdio de sua vida para trs. Que madrugada!
0 carro foi passando por uma bela praa, ajardinada, parcialmente ocupada por galpes coloridos de um estabelecimento pblico.
PR-ESCOLA DA PREFEITURA e CRECHE E PR-PRIMRIO
- Vamos descer aqui - resolveu Ruth.
Leria no precisou ouvir mais nada para brecar. As despedidas foram feitas no interior do carro. - Boa sorte pra vocs - disse a esteticista.
- Voc foi uma amigona - agradeceu Ruth.
- E desculpe-nos pelos sustos - acrescentou Jlio. - Quem sabe um dia possamos lhe pagar por tudo.
- Espero que mais nada de ruim acontea a Miguel - desejou Leria. - Mas no quero v-lo nunca mais. Esta foi a pior noite de minha vida.
Os dois ficaram ss na praa, gelada. - Ela foi tima - comentou Jlio.
- Se foi! Mas ainda est morrendo de medo. - Eu tambm estou morrendo de medo. Ruth olhou para a rua.
- Vamos procurar um txi antes que algum nos arranque a valise. Esta zona e perigosa.
Jlio lembrou-se,de perguntar:
- 0 revlver da doutora est com voc, no est? Ruth abriu a sacola e retirou a arma.
Com um golpe de ponta a ponta de punhal, a mulher rasgou o travesseiro com que Miguel se protegia.
- Precisamos levar isto  polcia.
No foi preciso porque logo chegavam alguns policiais, certamente atendendo ao telefonema de Ruth.
FUGA DA CASA DE LENA
Lena reapareceu, um tanto afobada, trazendo uma pequena maleta com roupas essenciais. Estava doida para sumir da casa. - J estou pronta - disse. - S volto quando 
tiver certeza de que o perigo acabou.
- Eu e Jlio estamos resolvendo o que fazer.
- Mas aqui no podem ficar - adiantou-se Lena. - No quero tiroteio em minha casa. Vou pegar o Cae.
Quando ela saiu, Jlio comentou: - Estamos na rua.
- A casa  de Lena. Ela que manda. Temos de procurar um hotel.
- 0 que ser que aconteceu com o Miguel? - ele perguntou, como se esperasse de Deus a resposta.
- Como posso adivinhar? Jlio arriscou:
- E se fssemos ao hospital?
- Sem nenhuma dica seria loucura. Lena voltou com Cae e o poleiro. - Cuidem dele. Vou tirar o carro.
Ruth, sem consultar Jlio, comeou a fazer compulsivamente uma ligao telefnica.
- Pra quem est ligando?
Ela no respondeu. Atenderam do outro lado.
- Aqui  a moa que telefonou avisando que viu uma assassina de cabelos vermelhos entrando no hospital do bairro. Est lembrado? Foi o senhor mesmo que atendeu. 
Tomaram providncia? Quem ouviu, explicou alguma coisa, agradeceu e desligou.
- 0 que disseram?
- Que j mandaram uma viatura.
Jlio alegrou-se com a notcia. Poderia ser a salvao para Miguel. Mais confiante, sugeriu:
- Telefone tambm para o hospital.
Ruth hesitou um pouco mas comeou a discar. Quando atenderam fez uma voz doce, insuspeita, bem jovem e indagou:
de Miguel. Ele no despertou na primeira vez. E se estivesse to mal que no conseguisse acordar? Ou sob o efeito de sonferos? Isso seria o pior de tudo. Passou-lhe 
mais algumas vezes a lmina no rosto. Depois cutucou-lhe o pescoo com a ponta aguda do punhal.
Desta vez Miguel acordou e, acomodando-se por inteiro de costas, arregalou os olhos.
- Me passe aquilo que interessa - ela ordenou.
Ele virou o pescoo para o criado-mudo, informando onde estava o que ela procurava.
- L s estava a agenda - disse Ludmila exibindo-a com a mo esquerda como se ela fosse uma ventarola. - Quero  o dinheiro.
Com a voz encolhida pela surpresa, ele respondeu: - No est comigo.
- A massagista disse que est. - Procure.
- No criado-mudo no est. - Sumiu - disse ele.
- Levante-se - ela ordenou. - Por qu?
- Quero ver debaixo do colcho. - Miguel levantou-se lento e de m vontade. - Erga o colcho. - Ele obedeceu. Nada.
A de cabelos vermelhos ficou furiosa. - Est no instituto, no?
- No sei.
- Fui enganada. Vou voltar para l e matar os trs. Lena est amarrada na cadeira e os pivetes dormindo. Quanto a voc... Miguel sentiu que ia ser apunhalado. Ela 
agora precisava cal-lo para poder voltar em segurana ao instituto. No seria tola deixando-o com tempo para avisar a polcia.
Ludmila recuou para preparar o bote.
- At a vista - disse Miguel para dar a impresso de que estava desprevenido, feliz por livrar-se dela, mas num gesto rpido pegou o cobertor e atirou-o sobre a 
mulher, cobrindo-a.
Ludmila lutava para livrar-se do cobertor dando-lhe tempo para que ele a empurrasse. Ela caiu, soltando a caderneta. Miguel abaixou-se e pegou-a. Mas a assassina 
j estava livre do cobertor
e ia atacar outra vez, vibrando o punhal no ar. Parecia uma dana macabra.
- Venha, venha - ele a desafiava.
Para melhor evit-la, subiu de p na cama e pegou o travesseiro. Com um golpe de ponta a ponta de punhal, veloz, a mulher rasgou o travesseiro, que se desfez. Miguel 
saltou para o cho e gritou para chamar os enfermeiros.
Ludmila avanou outra vez, menos cautelosa. Ele conseguiu, embora sem muita energia, segurar-lhe o pulso e gritou outra vez. Caram ambos na cama, ela por cima, 
quase lhe cravando a ponta do punhal. Subitamente, com todo o corpo molhado de suor, com a viso embaada e pouco ar nos pulmes, Miguel sentiu que as foras lhe 
fugiam. Fizera at demais. Ia ceder, desmaiar, morrer. Abriram a porta do quarto.
Entravam a atendente, um enfermeiro e um mdico. - Essa  a mulher! - gritou a atendente.
Ludmila rolou para fora da cama com o punhal, j ameaando com ele os trs que chegavam. A atendente disparou pelo corredor, chamando outros funcionrios do hospital, 
mas o mdico
e o enfermeiro deram-lhe passagem, deixando a porta desimpedida. Ela, porm, no saiu logo, como se procurasse, atarantada, alguma coisa pelo quarto. Ouviram-se, 
em seguida, passos apressados de pessoas que se aproximavam, o que a obrigou a interromper sua busca. Cruzou a porta na garupa de sua vassoura de bruxa.
O mdico preocupou-se com Miguel. Aps ligeiro exame, observou:
- Parece que ela no chegou a golpe-lo. Mas est sem sentidos.
O enfermeiro olhava para o cho, onde estava o cobertor. Abaixou-se e ergueu uma caderneta.
- Acho que a mulher veio buscar isto. O mdico deu uma espiada.
- Uma agenda?
- No est me cheirando bem - suspeitou o enfermeiro, folheando pgina por pgina. - Esses nomes e endereos podem ser de gente que interessa  polcia.
- Narcotraficantes, talvez - ponderou o mdico. - E esse moo pode estar implicado com eles.
A atendente voltou:
- Ela fugiu num carro. Quase feriu o porteiro.
Agora era o mdico que examinava a agenda, como se comeasse a entender uma inscrio em hierglifos.
Mulher. Algum na vizinhana levantara cedo? Teve pena, porm, de acordar Ruth.
- Leeeeena! Leeeeena!
Estariam chamando a dona da casa? - Leeeeena... Leeeeena...
s vezes os sons eram mais repetidos: - Lena, Lena, Lena...
Jlio decidiu acordar a moa. No foi necessrio. Num muxoxo ela despertou:
- 0 que  isso?
- No sei. Algum est chamando Lena.
Ruth levantou-se e juntou-se a Jlio atrs da porta. - Parece um galo... Deve ser um galo.
- Leeeeena... Leeeeena...
- Oua. J sei quem . 0 papagaio - afirmou subitamente Jlio, solucionando o enigma.
- Ser que sofre de insnia? 0 que no sei  como Lena tolera isso.
- Ser que toda a noite faz o mesmo escarcu? - perguntou o rapaz.
- Todo papagaio  meio biruta.
Agora se percebia bem o rumor de asas, crescente.
- Ele deve estar desesperado. Quer derrubar o mundo.
- Vamos dar uma olhada? - sugeriu Ruth, incomodada com a gritaria do louro.
- Vamos - concordou Jlio.
- Vou levar o revlver. Leve o seu.
Cada um com sua arma, Ruth e Jlio apareceram no corredor. Tomaram o rumo da cozinha, de onde vinha o barulho. De repente, a moa estacou.        ,
- A luz da cozinha est acesa. Jlio tambm viu.
- Lena no foi dormir?
- Talvez esteja fazendo um ch.
Chegaram  janela da cozinha que dava para o corredor. Era baixa. Podiam ver o que acontecia dentro. A ouviram, da sala de jantar, os sons de outro pssaro.
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14 1 CU-CO, CU-CO, CU-CO, CU-CO, CU-CO: CINCO HORAS
A mulher de cabelos vermelhos acompanhou a esposa do acidentado at a recepo do hospital, enquanto o marido, na maca, era levado s pressas para o interior. Uma 
atendente, a mesma que preenchera a ficha de Miguel, comeou a fazer as perguntas de praxe  moa desesperada. Em sua companhia, Ludmila passava como parente. Mas 
bem atenta examinava o hospital, fixando o olhar nas portas.
- A senhora  da famlia? - perguntou a atendente.
A de cabelos vermelhos, que no esperava pela pergunta, respondeu:
- Da famlia no - querendo dar a entender que era apenas uma conhecida.
A atendente em seguida conduziu as duas a uma pequena sala vazia.
- Esperem aqui.
- Ele ser atendido logo? - perguntou a mulher do aciden
tado.
- Primeiro tiraro chapas e daro antibiticos. 0 cirurgio ainda no chegou.
- Ele vir quando? - foi a pergunta ansiosa.
- No vai demorar. J foi chamado para outro caso. Outro caso. Talvez se trate de Miguel, sups a mulher de cabelos vermelhos.
Quando a atendente se retirou, a jovem esposa comeou a chorar.
- Quer um pouco de gua? Posso ir buscar - prontificouse Ludmila, para comear a abrir portas  procura de Miguel. - Quero - disse ela.
Mas no mesmo instante chegava a prestativa atendente com uma bandeja, dois copos e alguns comprimidos.
- Isto  um calmante para as senhoras.
A moa pegou o copo e o comprimido, que tomou, mas a falsa acompanhante os recusou.
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veis intenes, ignorava. O que sabia era que  procura dela j haviam mexido em sua gaveta na agncia de turismo. Fora quando pedira a Jlio que a guardasse por 
alguns dias. E percebendo que se encontrava sob suspeita, decidira apressar o velho plano. Apoderara-se dos quinhentos mil dlares.
Guardou a cadernetinha no criado-mudo.
MINUTOS AQUI E ACOLA
Lena logo constatou que a mulher de cabelos vermelhos era especialista em ns. Estava bem presa na cadeira. Apenas a mordaa cedia ora um tanto  esquerda, ora  
direita, conforme os movimentos que fazia com a boca. E fazia muitos, no para se livrar da mordaa mas para, afrouxando-a, respirar melhor. Caetano, no seu poleiro, 
observava-a. O obsceno papagaio dos palavres intua que algo de anormal acontecera  dona, e comeou a saltitar e protestar. Se estivessem no escuro estaria tirando 
sua soneca mas acontece que a bruxa esquecera-se de apagar a luz. Logo mais passou a fazer verdadeiros malabarismos, indo at onde permitia a delicada corrente que 
o prendia pelo p. - Faa mais barulho, mais barulho, Cae - pediria Lena se pudesse.
Descobriu logo em seguida que se movimentando no assento da cadeira, sacudindo-se toda, deslocando-a centmetros de um lado, centmetros de outro, provocava ainda 
mais a barulhenta solidariedade do papagaio. Este, excitado, virara um motor verde, que agitava sem cessar asas, pernas e mais que tudo sua garganta jocosa de tagarela.
- Assim, Cae, assim... - dizia Lena com os olhos a seu inquilino.
- Faa mais barulho para acordar Ruth e Jlio. Vamos, Cae. Mas o resto da casa continuava envolvido no silncio da madrugada.
NOVO VO DA BRUXA
Um carro pequeno estacionou nas imediaes do hospital em que Miguel estava internado. Uma mulher, que o dirigia, per
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maneceu dentro dele, a observar a porta aberta do pronto-socorro. Algum apareceu na soleira e logo tornou a entrar. Depois, s pressas, saiu um homem caminhando 
pela rua deserta,  procura aflita de um txi. Foi se afastando a gesticular aos carros que passavam.
Anunciada a distncia pela sirene, que estilhaou a paz noturna, chegou uma ambulncia.
Atenta, do interior do carro, a mulher viu um enfermeiro sair ao encontro da ambulncia. Desta desceu o motorista e uma mulher jovem em desespero total. O motorista 
e o enfer meiro entraram no hospital, retornando imediatamente com uma maca. Abriram a porta traseira da ambulncia. Uma pessoa ia ser retirada.
A mulher saiu do carro. Chegou-se  jovem desesperada. - O que aconteceu?
- Atropelamento. Meu marido...
Solidria, a mulher do carro postou-se a seu lado. - Este  um bom hospital - disse.
O ferido estava sendo removido para o interior do prontosocorro. Gemia e seu palet estava manchado de sangue.
- Meu marido, meu marido... - repetia a moa.
Todos foram entrando. A mulher do carro, que tinha os cabelos vermelhos, pegou no brao da pobre esposa do acidentado e ingressou com ela no hospital, com ar compungido.
A VOZ NA MADRUGADA
Ruth estava dorme-no-dorme mas um barulho indefinido a perturbava. O sono porm foi mais forte e sua cabea afundou no travesseiro. Bem merecia aquele descanso.
Quem despertou foi Jlio. Que barulho estranho era aquele? Sentou-se na cama. Olhou para Ruth, que dormia. Mesmo na penumbra era linda! Continuava, porm, no identificando 
o rumor esquisito que vinha da rua ou da casa de Lena. Parecia que algum sacudia qualquer coisa. Levantou-se e foi  porta. Em certo instante teve a impresso de 
ouvir uma voz, voz de comediante escrachado, gozadora, nem mesmo sabia se de homem ou
105
A ruiva pegou alguns metros duma corda fina e comeou a amarrar a esteticista.
0 que estava ouvindo?, assustou-se Ruth. Teve a impresso de que eram passos no corredor mas podia ser o sopro do vento pelas folhas das rvores. Estirando o brao 
para fora da cama, chegou a tocar o corpo de Jlio. Teve, porm, pena de acordlo. Mas pegou sobre a cadeira um dos revlveres. Tinham dois, um da doutora, outro 
de Miguel.
Foi at a porta, com a arma na mo, e encostou o ouvido  madeira.
Agora sons difusos vinham do porto. Abriu lentamente a porta e espiou o corredor. Fora, a escurido era tanta quanto a do quarto. Mas soprava de fato um vento persistente 
capaz de imitar rudos suspeitos e despertar sentidos tensos. No vendo nada de anormal, Ruth voltou para a cama.
ENQUANTO NO HOSPITAL...
Miguel tambm no conseguia dormir. Logo que cerrava os olhos acordava sobressaltado. No ombro no sentia propriamente dor mas a vibrao de uma forte pancada. E 
a hemorragia, a maior ameaa, parecia definitivamente estancada. Do seu quarto, s escuras, ouvia de quando em quando carros que passavam na rua e passos dos enfermeiros 
no corredor.
Decidiu acender a luz do abajur. 0 escuro pode fazer bem aos doentes e acidentados mas faz mal aos perseguidos da polcia. Abriu a gaveta do criado-mudo e retirou 
a agenda. Era uma cader neta comum. Sua me usava uma quase igual para anotar as despesas do emprio. Abriu-a. L estavam os endereos cada um numa pgina, o mais 
completo possvel. Todos de traficantes e de pontos de distribuio de drogas. De gente que matara para garantir a segurana do comrcio. Os nomes de Ludmila, a 
mulher de cabelos vermelhos, e o de Geovani, como tambm de alguns figures que a polcia ignorava estarem envolvidos com o trfico.
Mas por que ele organizara a agenda? Por motivos diversos. 0 primeiro, banal: no tinha memria para guardar endereos. Outro, o de vingar-se da quadrilha, caso
um dia resolvessem eli min-lo. Nunca se sabia quando um deles se tornava alvo de desconfiana. Mas o mais importante fora o de proteger-se, ter um escudo em caso
de ameaa, poder negociar se corresse perigo de vida. Como souberam da existncia da caderneta e de suas prov
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- Eu estou desempregado, o senhor sabe...
Miguel foi conduzido para o corredor. Um homem passava carregado numa maca, gemendo. Uma mulher, descabelada, indagava sem cessar:
- Onde est meu filho? Onde est meu filho?
- Isto  sempre assim, dia e noite - lamentou o enfermeiro. - Desastres, tiros, facadas... s vezes h verdadeiras guerras de quadrilhas. 0 radiologista disse que
h pouco bandidos destruram uma galeria comercial.
- No diga.
Entraram na sala do Raio X. 0 radiologista foi examinar o ferimento.
- Bala? - perguntou.
- Eu vinha andando e um tiro me acertou. Nem vi quem disparou.
- Isso  comum hoje em dia. Est doendo? - Agora no muito.
- Vamos radiografar.
Miguel foi colocado atrs do aparelho. Zum. Pronto.
- Pode lev-lo para o quarto - ordenou o radiologista. Ao sair, acompanhado pelo enfermeiro, Miguel pensou outra vez: at aqui, sem problemas.
No quarto, deitou-se e voltou a dormir. 0 sono era o melhor meio de encolher o tempo.
Lena dormia profundamente, cara no sono logo ao entrar na cama. Sua inteno era dormir at que a primeira cliente do instituto tocasse a campainha. Enquanto tomara 
o caf conside rara se fora demasiadamente cruel ao negar refgio a Ruth e ao rapaz. At podia ter sido, reconhecia mas aquela histria toda a apavorara. No entanto, 
quem sabe mudasse de idia no dia seguinte.
Fazia pouco tempo que havia adormecido quando foi bruscamente sacudida, como se o quarto todo vibrasse, e acordou sobressaltada.
0 que estava acontecendo?
Ao lado da cama, de p, estava uma mulher de cabelos vermelhos.
- Psiu - fez ela, levando um dedo aos lbios.
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- Quem  voc? - Fale baixo.
- Como entrou aqui? - perguntou Lena tremendo. - Eu que fao perguntas, massagista.
Lena sentou-se na cama. Sem cor alguma.
- Se quer jias e dinheiro, no tenho. Guardo tudo no banco... - balbuciou.
- Vejo que est me confundindo com uma ladra comum, boboca.
Lena ouvira falar da mulher de cabelos vermelhos por Ruth e Jlio. Entendeu a situao. Havia uma terrvel assassina no quarto e ela no tinha possibilidade de escapar 
ou defender-se. Caiu no terror total.
- Voc me conhece?
A mulher de cabelos vermelhos exibiu dois cartes iguais com o timbre comercial do instituto.
- Um foi encontrado numa gaveta de Miguel. Outro, no apartamento de Ruth. E j ouvi numa extenso um telefonema entre vocs dois.
- Sim... conheo ele - Lena gaguejou. Adiantaria negar? - Mas antes de dizer em que quarto eles esto, me fale das manchas de sangue.
- Manchas de sangue?
- Vi sangue diante da porta da rua e no corredor. A prpria Lena no notara.
-  sangue de Miguel - gaguejou. - Miguel?
- Sim.
A de cabelos vermelhos soltou um sorriso enviesado. Era melhor lidar com uma fera j ferida, esvaindo-se em sangue.
- Em que quarto ele est? Entrei em dois e estavam vazios. Lena achou que o prximo lance a favorecia, apesar da situao. - Ele no est aqui.
- Mentira - retrucou a assassina exibindo o punhal. - Mentira.
- Est num hospital.
- Quer me ludibriar, idiota? - Saltou sobre a cama e deu uma bofetada em Lena.
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- Tem gente na porta, no pare ainda.
- O que fao? - perguntou a ex-atriz, nervosa. - D uma volta no quarteiro.
Dar essa volta no quarteiro foi um suplcio. E se a pessoa ou pessoas que estivessem  porta do pronto-socorro no sassem? Longa volta, feita em silncio, puxada 
por uma nica interrogao. Retornaram vagarosamente ao pronto-socorro.
- No vejo ningum - disse Ruth.
- Nem eu - confirmou Lena, diminuindo a marcha do carro e brecando nas proximidades.
- Vamos - decidiu Ruth.
Jlio e Ruth, saindo do carro, tiveram de suar um pouco para tirar Miguel. Ele no ajudava, como se um profundo torpor o dominasse.
Fora do carro, Miguel fez um grande esforo para equilibrar-se. Os demais ficaram tensos. Ele conseguiria caminhar at a entrada do hospital?
- V, Miguel - encorajou-o Ruth. - V!
Miguel deu alguns passos vacilantes e parou. No se sabia se lhe faltavam foras ou se decidira voltar ao carro. Depois, tornou a caminhar, passo a passo. Suas pernas 
bambeavam e o corpo girava em torno dos quadris. Um marionete cujo marionetista se embriagara antes do espetculo. No interior do carro Ruth, Jlio e Lena sofriam. 
Miguel j se postava bem diante da porta, o corpo, encurvado, iluminado pela luz interior. Mais alguns passos e estaria dentro.
- Caiu! - gritou Ruth. Realmente Miguel cara, sim, cara. No desacordado, tentava ajoelhar-se com sacrifcio. Ruth no suportou. Saiu, eltrica, do carro.
Lena chegou a gritar: - Volte!
Mas ela no voltou.
- Vai se comprometer - disse Lena.
Ruth chegou diante de Miguel e curvou-se numa frgil tentativa de ergu-lo. No conseguiu.
- Vou ajud-la - decidiu Jlio dentro do carro. Lena impediu que sasse:
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- No. Quer que as coisas se compliquem mais ainda? Ruth, vendo que no tinha foras para erguer Miguel, correu  porta do pronto-socorro.
- Tem um homem ferido aqui! - gritou.
Imediatamente um enfermeiro e uma moa apareceram  porta. - O que foi? - o enfermeiro perguntou, olhando para o cho. - No sei... Esse homem vinha caminhando quando 
caiu. - Sangue... - observou logo a moa que acompanhava o enfermeiro.
Atrado pelo grito surgiu de dentro outro homem, porteiro ou motorista, e os trs foram carregando Miguel para o interior do pronto-socorro.
Ruth viu manchas de sangue na calada e retornou ao carro. Eram precisamente quatro horas da madrugada.
13 e QUATRO HORAS DA MADRUGADA
- Vamos fugir daqui - disse Lena.
- Minha vontade era ficar com ele - confessou Ruth. - Acontea o que acontecer.
Lena, ainda apavorada com os acontecimentos, ps o carro em movimento.
- Acha que vo identific-lo? - indagou Jlio. - Se tiver sorte, no.
- Por que ele quis a caderneta? - perguntou Jlio.
-  sua ltima arma - explicou Ruth. - Arma que poder usar mesmo depois de morto. A polcia, de posse dela, pode desbaratar a quadrilha inteira. Ele estava pensando 
em ns, em nossa segurana.
Depois de um longo silncio Jlio tornou a fazer uma pergunta. - Tem idia de onde poderemos ficar?
Ruth esperou uma palavra de Lena, uma prova de solidarie
dade.
- Em minha casa no podem - disse a esteticista em tom lamentoso. - Esta noite, sim. Tudo bem. Mas eu no teria calma para trabalhar com vocs escondidos l. Entendem 
isso?
no
- Mas o qu? - perguntou Ruth.
- Sou fichado. H um equvoco sobre meu verdadeiro nome, mas podero me reconhecer.
- Melhor estar preso que morto - declarou a esteticista. Miguel no tinha muita certeza a esse respeito.
-  o que devemos fazer - decidiu Ruth. - E sem perder mais tempo.
- No - ele discordou, e tentou pr-se de p, decidido, mas no conseguiu. Largou-se sentado na cama. - Estou muito tonto - admitiu.
- Como o levaremos a um hospital? - afligiu-se Jlio. - Lena, voc tem um carro, no tem? - perguntou Ruth. - Tenho. Tudo que sobrou do que ganhei no teatro.
- Ento o levaremos de carro... Ela aceitou, mas ponderou:
- Quem entra com ele no hospital?
- Eu e Miguel no podemos. A quadrilha anda atrs de ns. Lena podia ser um amor de pessoa mas no gostava de arriscar a pele. Como todo o mundo.
- Se eu for com ele terei de deixar meu nome e endereo, mostrar documentos. Isso me complicaria.
- Lena, por favor - implorou Ruth.
- Ela tem razo - concordou Miguel com voz difusa. - Darei um jeito.
- Que jeito?
- Entrarei no hospital sozinho. Existia outra sada?
Os trs retiraram-se do quarto. Ruth e Jlio muito abatidos. Lena dirigiu-se  garagem no fundo do corredor. Dentro, um carro marrom bem malhado. A esteticista entrou 
no veculo e ligou o motor. Devido ao frio, custou a pegar.
Depois Jlio e Ruth foram ajudar Miguel a sair do quarto. Ele precisava mesmo de ajuda, estava todo mole. Enquanto caminhava com os braos apoiados nos ombros dos 
dois, dava instrues: - No voltem para o apartamento.
- No voltaremos - garantiu Ruth.
- Usem os dlares para se manter num hotel longe do centro. Se souberem que me pegaram, desapaream. E no se preocupem em guardar para mim. Traidor de mafiosos 
morre na priso.
- No fale mais, por favor - pediu Ruth.
Afinal entraram os quatro no carro que foi de marcha a r at o porto. Lena abriu-o, manobrou o veculo e depois fechou-o. - Conhece um hospital por perto?- perguntou 
Ruth.
- Conheo - disse Lena. - Um pronto-socorro de hospital pblico. Casos de acidente so atendidos na hora.
Ruth falava a Miguel como um diretor teatral.
- Diga que ouviu um tiroteio e foi atingido... E que andou muito tempo  procura de socorro. Chegou a cair no cho. Est entendendo, Miguel?
- Estou - ele respondeu com um fio de voz.
Lena dirigia lenta e nervosamente, como se sua vista no ajudasse. Tinha s vezes de comprimir os olhos para poder ver melhor atravs da neblina da madrugada. Era 
amiga de Ruth e Miguel porm j no estava na idade de se meter em aventuras perigosas. As vezes que se vira entre policiais e bandidos fora no palco e diante de 
cmeras cinematogrficas. Na realidade era diferente.
Jlio, no banco de trs com Ruth, viajava com os olhos fixos no irmo, tombado de encontro  porta. Tentava fundir na mesma imagem o traficante baleado com o moo 
que partira h oito anos de Serra Branca. No conseguia. Nem sabia o que dizer naquela situao. De qualquer forma era tarde demais para conselhos. Miguel subitamente 
retirou algo da cintura e entregou a Ruth. Era o revlver.
- Fique com ele.
- Entendo - ela concordou. - No pode entrar armado no hospital.
- Me d a caderneta - pediu Miguel em seguida.
Jlio retirou a agendinha do bolso e com um olhar consultou Ruth.
- Entregue - ela ordenou. - Miguel pode precisar dela. 0 rapaz passou-a ao irmo.
Lena comeou a diminuir a marcha do carro.
Viram um edifcio de dois andares com a porta aberta de par em par.
- 0 hospital  ali...
Ruth, atenta a tudo, observou:
Ruth no sabia se tratava Miguel como enfermeira ou como namorada.
- No ombro, atrs. No comeo no senti nada.
Ruth no sabia se o tratava como enfermeira ou namorada. - Viu que o Jlio est comigo?
- Oi, Jlio! - cumprimentou Miguel como se nunca tivesse havido segredos entre eles.
- Oi.
- Jlio tem se portado muito bem - foi contand Ruth. - Acertou uma cadeirada na ruiva e me ajudou a dominar a doutora. - Parabns - louvou Miguel.
Foi a vez de Jlio falar:
- A ruiva esfaqueou a Ana do Yellow Mountain. - ? Pobre Ana. No tinha nada com isso...
Sentada na cama com a mo de Miguel entre as suas, Ruth informou:
- Estamos com a sacola e a caderneta. A voz no escuro respondeu:
-  melhor que fique tudo com vocs. No sei para onde irei agora.
Lena, que se mantivera calada durante a cena, manifestou-se: - Ele no pode ficar aqui. Est perdendo sangue.
Ruth perguntou depressa:
- Tem para onde ir, Miguel? Resposta imediata:
- No.
- Quer ir para meu apartamento?
- Se eu for, eles acabam comigo antes do amanhecer. Lena demonstrava impacincia com a conversa. No se entendia se desejava que Miguel fosse logo socorrido ou se 
preferia verse logo livre dele. As duas intenes seriam compreensveis.
- Vo precisa de um mdico. Miguel comentou, tentando rir: - A doutora est fazendo falta. Mas Ruth e Jlio no riram.
- O jeito  internar voc - disse a moa. - Precisa dum hospital.  s dizer que foi atingido por uma bala perdida. Miguel fez caretas, doa.
- Seria uma boa idia, mas...
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- Miguel sabia que voc tinha essa tia na cabea? - perguntou Jlio.
- Sabia - ela respondeu. - E sempre dizia: quando formos para o exterior levaremos tia Conceio junto. A velha merece viajar um pouco. Miguel faz graa de tudo, 
no?
- J disse que no conhecemos o mesmo Miguel.
Ruth comeou a andar mais devagar. Estavam chegando. - Luz? Ser que Leria est acordada? A esta hora?
A casa de Leria era trrea e comprida, ladeada  direita por um corredor de terra, da mesma extenso, onde se alinhavam pequenos quartos de porta e janela. Devia 
ser onde ela exercia sua profisso.
 entrada havia uma placa metlica que no escuro da rua mal dava para ser lida:
LENA - ESTETICISTA E MASSAGISTA
- Pode ser que esteja esperando a gente - ponderou Jlio. - No podia esperar, a no ser que Miguel lhe tenha telefonado.
- Confia nela?
- A esta altura tenho medo de todos - admitiu Ruth. - Ela  amiga de Miguel?
- Eu que lhe apresentei Leria. Conheci Lena no teatro. Mas ela e Miguel ficaram muito amigos. Ele tem aquele jeito especial para cativar pessoas.
- Ela sabe do que ele vive?
- No sabia mas algum lhe disse. - E ela continuou amiga dele?
- Isso que vamos saber agora.
Ruth tocou a campainha. Como ningum atendia os dois ficaram apreensivos. Ela tocou outra vez.
Desta vez acendeu-se uma luz atrs da porta, que se abriu em seguida.
Uma mulher de meia-idade, vestindo um folgado vestido caseiro de cor indefinida, aparentando um temor exagerado de alguma coisa, apareceu.
- Sou eu, Ruth. - Entre depressa.
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Ruth e Jlio entraram na casa que cheirava levemente a produtos qumicos.
- Este  Jlio, irmo do Miguel.
- Muito prazer - Leria e Jlio disseram ao mesmo tempo. Foram entrando sem que Leria acendesse a luz do corredor. Ao chegarem  sala, ligou um abajur.
- Tinha deixado a luz da sala acesa para que soubessem que eu estava em casa.
- Sabia que viramos?
- Sabia - a ex-atriz confirmou. - Ento Miguel telefonou?
- No. Mistrio. - Ento como sabia?
Uma pausa dessas que Lena devia fazer muito bem quando representava.
- Ele est aqui.
Afinal uma boa notcia! - Est? Onde?
- Num dos quartos de fora.
- Vamos - disse Ruth, ansiosa por rever o namorado. A esteticista no se moveu.
- Mas tem uma coisa.
- O qu? - perguntou Ruth, j aflita. Outra pausa teatral, dispensvel.
- Ele est ferido.
- Ferido? - exclamou a moa. - Levou um tiro.
- O ferimento  grave? - perguntou Jlio em cima. - Talvez no seja, mas aqui no poder ficar.
Em seguida, pelos fundos da casa, Lena levou os dois para o corredor externo e destrancou a porta de um dos quartos. Ruth e Jlio ansiosos. Em completa escurido 
um homem estava estirado numa cama alta, especial para massagens.
- Miguel... - sussurrou Ruth.
- Me acertaram - disse uma voz recortada pela dor. - Mas um mandei para o inferno. No Geovani, infelizmente.
- Onde a bala pegou?
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- Vou entrar e ligar a luz - anunciou Geovani, comeando a avanar pela vitrina adentro, pisando vidro e objetos que o bombardeio derrubara.
O traficante que permanecera na galeria, diante da vitrina em cacos, acendeu um isqueiro para facilitar a tarefa do companheiro. Idiota! Melhor oportunidade no 
poderia surgir. Miguel ergueu-se e apertou o gatilho duas vezes, e ao v-lo cair, como um dos manequins, mais uma vez atirou ao interior da vitrina. Depois afastou-se 
a correr, rente  galeria, o mais que pde. Dobrou a esquina e a distncia viu a rua. Continuou a correr. Ao chegar  entrada, sob o neon verde, olhou para trs. 
Percebeu um vulto o perseguindo, Geovani, e atirou. O outro respondeu instantaneamente ao fogo.
Diante da galeria estava estacionado o carro de Geovani. Miguel atirou num dos pneus e prosseguiu na fuga, todo dolorido, com uma dor aguda s costas, vendo na direo 
oposta pessoas que se aproximavam s pressas despertadas pelo tiroteio.
- Esto assaltando as lojas! - ouviu dizer.
Miguel foi se afastando, ofegante, j no to rapidamente, em sentido inverso ao que Geovani deixara o carro. Mais alm, oculto atrs de uma rvore, onde parara 
para respirar, viu quando ele entrou no auto, que saiu capengando, com um pneu no cho. Parou logo adiante. Sempre em frente, Miguel deu com uma avenida semicoberta 
pela neblina. Precisava encontrar um telefone. Teve de andar muito, e cada vez mais lento, sentindo dores, sob um frio de rachar, quando viu afinal um orelho. Ligou 
para o Yellow e falou com Ana, informando em poucas palavras que no iria ao salo. Ela que tomasse conta de Ruth e Jlio e os mandasse  casa de Lena.
Ana perguntou: - Voc est bem? - Acho que estou - respondeu.
Somente aps o telefonema percebeu o quanto estava cansado. Tenso exaure mais que qualquer esforo muscular. Estava esgotado, fraco, e com dores agora concentradas 
no ombro. Mas se sara bem na batalha. Pena que derrubara o outro, no Geovani. Este, sabia, no desistiria enquanto no estivesse bem longe. Persistente igual a 
ele, e capaz de inventar os maiores ardis, s
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mesmo Ludmila, aquela vbora de cabelos vermelhos. Gostaria de no tornar a encontrar nenhum dos dois at embarcar num avio. Viu um bar aberto.
- Um caf - pediu.
Um fregusque j estava no bar, vendo-o por trs, perguntou: - O senhor se machucou?
- Eu?
- Seu ombro est sangrando.
Miguel levou a mo  parte traseira do ombro e quando a retirou, molhada, viu que era sangue.
12 ~ TRS HORAS DA MADRUGADA
Tendo descido de um txi, Ruth e Jlio caminhavam. Ela nunca mandava os txis pararem  porta dos lugares aonde ia. Miguel lhe ensinara que devia haver um espao 
para iludir qual quer perseguidor. Somente entrar numa casa ou edifcio depois de ter a certeza de que a rua estava limpa. Graas a essa simples precauo, a de 
evitar becos sem sada, Miguel escapara mais de uma vez da polcia. Sua segurana sempre dependera de um conjunto de espertezas.
Caminhavam por uma rua bastante arborizada, cheia de sombras, que a madrugada tornava macia.
- Eu imaginava tia Conceio morando numa rua assim - contou Ruth. - Bem residencial. Numa casa bonitinha, toda branca, com plantas, onde eu pudesse morar quando 
me faltasse dinheiro. Me sentia mais segura imaginando. J fui expulsa de vrias penses por falta de pagamento. Sei como  horrvel ver o ms acabar e a gente no 
ter dinheiro nem para garantir o teto.
- Mas voc no disse que trabalha no teatro?
- Sim, desenho cenrios, mas, a princpio, nem sempre havia trabalho. Chegava a ficar meses parada. Era quando mais pensava em tia Conceio, quando a inventava 
melhor. At a dese nhei, sentada numa cadeira de balano, ao lado de uma janela. Todos os dias eu aperfeioava o desenho. Queria que ficasse perfeito e at falasse.
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- Se pde telefonar ao menos estava vivo - comentou Ruth. - Confio muito na esperteza dele. Acho que escapar desta. Jlio lembrou-se de algo desagradvel.
- Depois disso tudo acabou-se meu sonho de viver na capital. - Miguel at que falava muito bem de Serra Branca.
A lamentao de Jlio fora o ensaio para uma pergunta: - Acha que nos veremos novamente?
- Esta noite tudo est na corda bamba. Inclusive nossas vidas. - Ruth segurou a mo dele carinhosamente como se passeassem no pacfico ptio de um colgio  espera
de uma aula de geografia.
- Acho que a gente se ver de novo. Esqueceu que pretendo ser sua cunhada?
Jlio de fato esquecera. E no gostara da lembrana. - Vamos para a casa da tal Lena?
- 0 nome dela  Helena. Miguel que a chama de Lena. Gosta de simplificar nomes. A mim chama de Ru, principalmente quando as coisas vo bem. Ruth guarda para os momentos
negros. - Voc conhece essa Lena?
- Conheo, lida com produtos de beleza. Tem um curso de esteticista. Foi atriz.
- Foi atriz?
- Antigamente, quando era moa e bonita. Guarda muitos retratos dessa poca. Vive muito do passado. D at a impresso de que sua vida se encerrou com o ltimo contrato
no palco que teve. - Pelo jeito Miguel tem muitos amigos.
- E um cara expansivo, todos gostam dele.
- Nunca vou entender como se tornou traficante de txicos. - A gente nunca entende tudo. Aquilo parece um ponto de txi, no? Vamos nos apressar.
Quase correram em direo a uma esquina. Dois txis parados. Entraram no primeiro e Ruth disse o nome de uma rua ao motorista. 0 rdio do carro estava ligado: transmitia 
as ocorrn
cias policiais da noite. Depois de relatar um assalto numa manso da zona sul o locutor referiu-se  estranha agresso sofrida por um sacristo no interior de uma 
igreja. 0 religioso rezava ante o altar quando uma mulher de cabelos vermelhos o apunhalara pelas costas, no se sabia com que propsito. Talvez, supunham, se tratasse 
de uma demente.
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z
A voz do motorista encobriu o final da notcia:
- Hoje em dia nem freiras e padres escapam. A cidade est assim. Sabem quantas vezes j fui assaltado?
NOUTRO PONTO DA MADRUGADA
Miguel tinha quase a certeza de que Ludmila, a mulher de cabelos vermelhos, iria no Yellow Mountain, por isso, ao sair do bangal da doutora, telefonou de uma farmcia 
para Ana, a fim de alertar Ruth e Jlio, caso os dois aparecessem por l. No estava convicto nem de uma coisa nem da outra, poderia estar perdendo tempo, mas de 
qualquer forma o salo de festas seria sua prxima parada. Antes do amanhecer esperava estar de posse da sacola, que guardara na rodoviria, e da caderneta de endereos, 
entregue ao irmo, para ento desaparecer da cidade e provavelmente do pas. Levaria Ruth consigo, mesmo que no a amasse, pois ela j se complicara demais em sua 
companhia. Quanto a Jlio, iria despach-lo em segurana para Serra Branca, talvez num txi. Se aceitasse, lhe daria algum dinheiro, reconhecendo que tudo aquilo 
prejudicara bastante o rapaz, to desejoso de trocar o interior pela cidade grande. Esperava, porm, que Jlio se mantivess
 e discreto, inventando uma histria qualquer  famlia para justificar seu regresso.
Procurava um txi para se dirigir ao Yellow, andando numa rua quase deserta, a ouvir os prprios passos sobre a calada, quando percebeu rudos de um automvel rodando 
lentamente,
junto ao meio-fio. Olhou para trs e reconheceu o carro, aquele em que vira Geovani e o outro traficante entrar. No mesmo instante escutou tiros, um-dois-trs, e 
jogou-se no cho, o rosto encostado no cimento frio. Quando o carro brecou, levantou-se e disparou a correr. Os homens voltaram para o carro e o puseram rapidamente 
em movimento.
Miguel conheceu a sensao de estar sendo caado sobre rodas. Por mais que corresse seria alcanado. Parou por um instante para que o auto o ultrapassasse, porm 
os traficantes manti nham uma distncia prudente que lhes daria tempo de atirar se o perseguido recorresse a alguma manobra. Tornou a correr e ouviu novos disparos. 
Adiante viu o brilho verde de um luminoso.
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Jlio e Ruth ajoelharam-se ao lado de Ana. Sangrava muito mas estava viva.
- Ela esperava por vocs - conseguiu dizer.
- A bruxa? J sabamos que tinha se fantasiado. Soubemos pelo Souza - contou Ruth.
- Miguel telefonou - prosseguiu Ana com dificuldade. - Ele no vem. Vai esperar vocs na casa da Lena.
0 homem que telefonava finalizou a ligao. Uma ambulncia estava a caminho. Dois outros saram da sala para tentar segurar a agressora, que j devia estar deixando 
o Yellow.
- No direi nada  polcia sobre o dinheiro - garantiu Ana em voz baixa mas que Jlio e Ruth puderam ouvir. Colocaram-na sobre um sof.
Ruth puxou Jlio para o guarda-roupa a fim de trocarem de roupa, o que fizeram rapidamente. Mas no se retiraram logo. Afinal cabia-lhes certa culpa pelo que acontecera 
a Ana. A esta altura j havia umas dez pessoas na gerncia.
Subitamente dois dos fortes guardas do Yellow entraram trazendo  fora uma bruxa. Tinham apanhado a assassina!
- 0 que eu fiz? - ela protestava. - Me soltem, brutos. Arrancaram-lhe o chapu e a mscara. Era uma morena, muito jovem. Uma das vinte bruxas da noite.
- No  essa - disse Ruth. - Cmo sabe?
Ruth se atrapalhou mas Jlio encontrou uma sada:
- Estive danando do lado dessa moa o tempo todo. Garanto que no entrou aqui na gerncia.
Como a garota rompesse a chorar, foi dispensada.
Em seguida, os homens que haviam sado primeiro para deter a bruxa, voltaram.
- Ela tomou um txi.
- Vocs viram? - perguntou o leo-de-chcara. - Uma mulher nos informou - disseram.
- Por acaso - interveio Jlio - essa mulher que informou tinha cabelos vermelhos?
- Tinha - responderam surpresos. E o leo:
- Como sabe, rapaz?
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- Vi uma mulher de cabelos vermelhos, muito suspeita, alugando uma fantasia. Eu estava l - mentiu Jlio, sem convencer muito.
Vieram avisar que a ambulncia chegara. Ana seria retirada por uma porta de incndio prxima  gerncia.
Jlio e Ruth decidiram acompanhar a remoo da vtima, j posta na maca trazida por dois enfermeiros. Saram com um grupo pela porta de incndio, enquanto no salo 
a farra dos mons
tros continuava. Poucos souberam do que sucedera. No frescor da madrugada viram a maca entrar na ambulncia, que partiu no mesmo instante.
- J deve ser bem tarde - disse Jlio como se a noite pesasse sobre ele.
- Muito depois das duas.
11 e DEPOIS DAS DUAS DA MADRUGADA
J lio e Ruth foram andando, ainda a ouvir da rua um mambo-jambo.
- Sempre que ouvir um mambo me lembrarei de sangue - comentou.
- Ana deve ter enfrentado a ruiva. Mulher corajosa. Espero nunca mais ver aquela criminosa pela frente.
0 rapaz chutou qualquer coisa. Abaixou-se para ver o que era. - Uma mscara!
- Mscara de bruxa! - exclamou Ruth. - Ela deve ter se livrado da fantasia assim que deixou o salo. - Vou levar essa mscara.
- Por qu? - Suvenir. Olhando para o cho Jlio fez nova descoberta.
- 0 chapu! - Abaixou-se e pegou-o. - Era o que ela usava, sem dvida.
Continuaram andando.
- Por que ser que Miguel no pde aparecer? - Ana no disse.
- Espero que no esteja ferido. Ser que ele est?
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- Isso no - protestou a dona do salo. - Sofre de claustrofobia? Que me importa? - No me prenda aqui.
- Vai ficar a e bem quietinha. No quero que me atrapalhe quando eles chegarem...
A pacincia de Ana chegou ao fim. Atracou-se com a bruxa.
Jlio e Ruth precisavam de um minuto para avanar um metro. Danando e saltando, numa alegria esfuziante, os monstros no cediam espao. Parecia que as pessoas, 
vestidas daquela maneira e com aquelas mscaras apavorantes, assumiam sua verdadeira personalidade. A humanidade ou parte dela como realmente era por dentro. E ainda 
mais opressivo que o visual, mais sufocante que a fumaa dos efeitos especiais, eram os sons do mambo, mambo-jambo, como se provenientes de imensos tonis rolando 
no convs de um navio ao sabor de uma tempestade. Havia, ainda, naquela noite de extravagncias, um bombardeio de raios luminosos, laser, vindos do alto, que projetavam 
no escuro do salo fragmentos de um dia magicamente ensolarado. Assim Drculas, Frankensteins e outros monstros podiam ser vistos no todo ou em partes  luz jateada 
do meio-dia.
Lentamente, evitando uns ou forando com o ombro para romper barreiras, a espantalho, sempre acompanhada da sacola milionria, e o diabo foram se aproximando da 
porta da gerncia. - Jlio! Veja!
Uma bruxa saa precipitadamente, logo se misturando com a massa de folies.
Na sala de espera da gerncia estavam dois homens espiando para o interior.
Ouviram dizer:
- Esfaquearam dona Ana.
Jlio e Ruth passaram  gerncia onde j se encontrava o leo-de-chcara que os recebera. Viram o corpo de Ana ao cho, ensangentado.
- 0 que aconteceu? - perguntou Ruth.
- Ouvimos gritos e batemos na porta - explicou o leo. - A porta abriu e saiu uma pessoa fantasiada de bruxa. Algum comeou a telefonar para um pronto-socorro. 
Outras pessoas entravam.
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Mesmo sangrando muito, Ana conseguiu dizer.- Ela esperava por vocs.
- 0 que voc quer?
A bruxa respondeu com um sotaque bem estrangeiro: - Vim esperar Miguel.
- Miguel? - exclamou Ana, sentindo o sangue ferver. - Voc sabe de quem falo.
Ana fazia o possvel para manter a naturalidade.
- Se  o Miguel que eu penso acabou de me informar que no vem.
Bateram na porta. Ana levantou-se.
- Voc no vai atender - disse a bruxa. E espiou pelo visor. - S deixarei entrar se forem aqueles dois.
- Que dois?
- A mocinha e o garoto.
- Que mocinha? Que garoto?
- Eles entravam no salo quando cheguei. Deviam ter encontro marcado com Miguel.
- Ele no vir - repetiu Ana. Estava muito assustada. Nova batida na porta. A bruxa olhou novamente pelo visor. No era ningum que lhe interessava.
- Por favor, saia daqui - ordenou Ana.
- Vou esperar pelos dois. A menos que tenham deixado o dinheiro com voc.
- Que dinheiro? No sei de dinheiro nenhum.
- No viu uma sacola de viagem com eles? Tem meio milho de dlares dentro. Dinheiro roubado por Miguel.
- Eu no vi nada.
A bruxa mostrou um punhal. Parecia uma pea de estilo, brilhante, rara, e por isso mesmo mais ameaadora. E a fantasia, aquele chapu, aquela mscara, tornavam a 
situao ainda mais aterradora.
- Voc vai ter de falar - disse a intrusa. - Trata-se de sua vida. Para mim no vale nada mas para voc  preciosa.
- Afinal, o que voc quer que eu diga? - Os dois pivetes estiveram aqui?
s vezes uma meia verdade salva. - Estiveram mas foram embora.
A bruxa riu. As bruxas assustam mais quando riem. Sua maldade  jocosa.
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- Por que iriam embora se apenas agora voc soube que Miguel no vir?
Ana sentiu-se diante de um ser diablico, capaz de um raciocnio instantneo. Ela a pegara. Os jovens no poderiam ter se retirado j que aguardavam uma pessoa que 
estava a caminho. Se houvera um imprevisto no sabiam ainda.
- No sei - apenas pde dizer.
- Aposto que foram danar um pouco - sugeriu a bruxa. - E logo estaro de volta para ver se Miguel j chegou.
- No estavam fantasiados.
- Nem eu estava quando cheguei - disse a bruxa. - J que insiste, espere.
A mscara no refletiu mas um pensamento lampejou no rosto da mulher do punhal.
- Mas eles no iriam danar com a sacola, portanto... - Portanto o qu?
- Ela deve estar com voc. V abrindo as gavetas e depressa. Ana obedeceu. Foi abrindo as gavetas da escrivaninha que s tinham livros de contabilidade e revistas.
- Aqui no tem nada - disse Ana. A bruxa olhou para a porta do fundo. - O que tem l?
-  um guarda-roupa. - Vamos. Levante-se.
Com Ana  frente, tendo nas costas o toque da ponta do punhal, entraram no camarim. Havia algumas gavetas para abrir. Ana foi abrindo.
- H fantasias aqui - observou a bruxa.
- So selecionadas para alguns convidados. Eles no precisam alugar.
A bruxa riu outra vez, como as bruxas dos desenhos animados. - Que fantasias os canalhinhas esto usando?
- Nenhuma.
- Posso apostar que esto - garantiu a fada m. Ana deu mostras de estar perdendo a pacincia. - Vamos acabar com isso. Procure-os pelo salo.
- Enquanto voc chama seus cupinchas... No, vou prendla neste quarto enquanto espero os canalhinhas na gerncia, com a porta fechada.
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Mais algum tempo e o ltimo guich interrompia definitivamente a venda de ingressos.
Ruth aproximou-se do porteiro. - Estamos esperando um amigo. - A lotao est esgotada - disse ele. - Trata-se de um amigo de dona Ana. - Sendo amigo dela a gente 
deixa entrar sem bilhete. Ruth teve a idia de dizer:
- Talvez o senhor conhea. Ele j trabalhou aqui. 0 senhor antigo na casa?
- Trabalho no Yellow desde que abriu. Oito anos. - Conheceu Miguel?
- Miguel? 0 boa cabea? Conheci, sim. - Viu ele entrar?
- No entrou. - Certeza?
- Estou aqui na portaria desde as dez e no vi. - Que pena! - lamentou a moa.
- Falaram com dona Ana? - perguntou o porteiro. - J. Ela est  espera dele tambm.
A espantalho e o diabo caram no desnimo. 0 porteiro teve uma lembrana.
- Por que no vo a na sala onde alugamos fantasia? - Por qu?
- Ele pode ter passado por l. Falem com o Souza. Ele conhece Miguel muito bem.
Jlio e Ruth aceitaram o conselho. A sala onde se alugavam fantasias, dividida em baias, um lado para homens e outro para mulheres, estava vazia. Nenhum folio, 
apenas um homem com um bon  cabea sentado numa cadeira.
- 0 senhor  o Souza? - perguntou Jlio. - Sou.
- 0 senhor viu o Miguel, aquele que j trabalhou aqui?
- Fala do Miguel que bolava uma idia por dia? Foi ele que levantou esta casa!
- Viu ele hoje?
- No vejo Miguel h tempo. Por qu, ficou de aparecer? - Ficou - disse Jlio.

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- Por aqui no passou. Estaria na gerncia? - No est. Obrigado.
Os dois j se retiravam quando Jlio voltou um passo e perguntou:
- Por acaso alugou fantasia para uma mulher de cabelos vermelhos?
A resposta foi mais breve do que Ruth e Jlio poderiam imaginar.
- Uma que parece uma cenoura? - Pode ser essa.
- Ela ficou um tempo escolhendo fantasia. Uma chata. - Estava sozinha? - perguntou Ruth.
- Estava.
Aturdidos, Jlio e Ruth indagaram ao mesmo tempo: - Que fantasia escolheu?
- De bruxa. Uma igualzinha  do filme O mgico de Oz. Com vassoura e tudo. Mas se querem encontr-la vai ser difcil. H no mnimo vinte bruxas iguais no salo.
Outra pergunta, aps uma pausa para engolir em seco. - Ela passar por aqui para devolver a fantasia?
- No. Ela comprou a fantasia. - Comprou?
- Alguns compram. No fica muito mais caro do que o aluguel. A gente esfola um pouco para compensar os que caem fora sem devolver a roupa - explicou o Souza.
Jlio e Ruth voltaram ao saguo sentindo-se perdidos. - Ela est aqui, Jlio - disse Ruth aterrorizada. Jlio tentou acalm-la:
- Mas Miguel no est. No poder fazer nada contra ele. E ns estamos fantasiados. No nos reconhecer.
- Nem ns a reconheceremos com tantas bruxas no salo. - 0 que acha que devemos fazer agora? - perguntou Jlio. - Contar a Ana o que aconteceu e sumir daqui.
Ana estava no escritrio recebendo um telefonema quando a porta da gerncia se abriu. Quem entrou fechou-a a chave atrs de si. A dona do estabelecimento, atenta 
ao que ouvia, curvada para o lado, nem percebeu. Ao desligar, vendo inesperadamente uma pessoa ante a mesa, perguntou:
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Ana espichou uma pausa enquanto acendia um cigarro.
- Parece que no h lugar suficientemente seguro para vocs esta noite - lamentou no centro de uma fumaa azul. - Quantos convites tinham ao chegar?
- Dois..
- Mandei trs para Miguel, caso quisesse trazer algum amigo... - 0 terceiro certamente ficou com ele - lembrou Ruth. - No ficou. Ele mesmo me disse. Um sumiu de 
sua mesa l na falsa agncia de turismo onde fazia ponto. A mulher de cabelos vermelhos, que trabalhava na mesa ao lado, j desconfiada das intenes dele, provavelmente 
tinha se apoderado do convite. A reao foi imediata.
- Seria mais prudente ento no sairmos daqui desta sala - disse Jlio.
- No. Tenho outra sugesto. 0 melhor ser observ-la de perto, seguir os seus passos.
- Ela nos reconheceria - alarmou-se Ruth.
- No, vou dar um jeito. Vamos passar para a sala ao lado. Era uma espcie de camarim. 0 Yellow j havia sido teatro, um remanescente dos anos 40, quando teatros 
e cinemas eram imensos. Ana abriu um guarda-roupa abarrotado de fantasias para ambos os sexos, reservada aos convidados especiais que quisessem us-las.
- Peguem o espantalho; tem uma bolsa de saco onde se pode guardar a sacola - sugeriu a dona do baile. - Escolham  vontade. Espero na gerncia.
A escolha das fantasias foi feita depressa, vesti-Ias no. Jlio sentiu-se um tanto constrangido ao tirar parte da roupa. Quando Ruth foi vestir a sua, ele voltou-se 
para a parede a fim de deixla mais  vontade.
- Que bobagem, Jlio! Quem sabe estamos nos vendo pela ltima vez. Pode olhar.
Ao se refletirem no espelho acharam graa. Ruth ficara maravilhosa de espantalho, com o enorme chapelo de palha. 0 rosto estava encoberto por uma mscara dominada 
por um impressio nante nariz torto. 0 espantalho duma casa do terror. A fantasia de Jlio era de diabo, diabo preto com um rabo comprido. Na mscara havia um afiado 
par de chifres.
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Voltaram  gerncia onde Ana os aguardava. - Escolheram bem - ela aprovou.
- 0 que a gente faz agora? - perguntou Ruth.
- Fiquem na entrada  espera de Miguel. Levem ele para a sala onde estamos alugando fantasias. Ele no deve atravessar o salo em traje de passeio. Se a ruiva j 
entrou o reconhecer. Fantasiado ele estar protegido. Ento o tragam para c. Arranjarei um jeito para sarem os trs.
Jlio e Ruth retornaram ao salo j mais densamente dominado pela fumaa. Estava lotado e raras eram as pessoas que no usavam fantasia, quase todas inspiradas nos 
temas de terror. A animao crescia a cada instante, impulsioada pelos mambos, cheios de breques e exploses instrumentais. Caminhar pelo salo no era fcil porque 
a multido formava uma massa compacta ou se dividia em correntes circulantes que desviavam a passagem. Tiveram de se dar as mos fortemente para no se perderem 
um do outro.
- Veja se descobre a mulher de cabelos vermelhos - disse Ruth ao companheiro.
Jlio redobrou a ateno, porm s via gente fantasiada. Depois, a fumaa do gelo seco dificultava distinguir qualquer coisa a distncia.
- Isto est mesmo com cara de inferno - comentou ele. Chegaram, por fim, ao saguo, onde o movimento era menor. Postaram-se logo  entrada, de onde veriam Miguel, 
se chegasse. Viam-se de l tambm os guichs, ainda com filas de compradores de ingressos. Miguel no estava em nenhuma delas.
- Ele j pode ter entrado - preocupou-se Jlio.
- Miguel conhece isto como a palma da mo. Se chegasse teria ido diretamente para a gerncia. Vamos ficar aqui.
Cada pessoa que comprava entrada era observada por Jlio e Ruth atravs do vidro da porta. Algum tempo depois a fila diminuiu. Um dos guichs foi fechado. Logo em 
seguida j no havia mais ningum.
- Acho que por algum motivo ele decidiu no vir para c - opinou Ruth.
- Ou deve ter acontecido qualquer coisa - temeu Jlio, mais pessimista.
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Jlio, vendo a mulher como uma figura de pedra-sabo, meio esttua, ficou em dvida em lhe apertar a mo. Acabou dizendo apenas:
- Muito prazer.
- Sabe se Miguel vem para c? - perguntou Ruth. - Acabo de falar com ele pelo telefone.
Ruth vibrou com a notcia. - Ele contou tudo?
- No sei se tudo, mas contou o que j aconteceu com ele esta noite. Cada coisa! Sentem-se, mas antes passe a chave na porta - pediu a mulher.
Ruth fechou a porta e ela e Jlio sentaram-se diante da escrivaninha. Ana acomodou-se numa poltrona giratria e comeou a repetir o que ouvira de seu ex-protegido.
UMA HISTRIA ENTRE PARNTESES
Miguel contara a Ana os episdios que vivera naquela noite. 0 da penso da Rita, onde houvera a batida policial, e o da cena de sangue na igreja. A terceira etapa 
tinha acontecido na casa de uma cirurgi que cuidara dele uma vez, quando fora baleado. Miguel no tivera tempo de avisar Ruth para no procur-lo l. Recentemente 
obtivera confirmao de que as ligaes da mdica com a quadrilha eram mais fortes do que aparentavam. Assim, temendo o pior, tomou um txi e foi para a residncia 
da mulher, descendo porm precavidamente nas imediaes. Aproximava-se da casa quando dois homens saram a toda pressa e entraram num carro. Escondendo-se atrs 
de uma rvore, reconheceu Geovani, o assassino. Teve, ento, de pensar muito para decidir o que fazer. Seu receio era de que Ruth e o irmo estivessem detidos ou 
mortos no interior da casa.. Ao parar diante dela notou que a porta estava apenas encostada. Com o revlver em punho entrou pelo j
 ardim. Viu um buraco no lugar da fechadura. Empurrou levemente a porta e penetrou nasala. Dois abajures estavam acesos mas no havia ningum. Ento ouviu gemidos 
que vinham da cozinha.
A gorda estava cada sobre os ladrilhos, ao lado de um co ensangentado. A mulher ainda vivia, o dlmata no.
- Quem fez isso? - perguntou Miguel.
A doutora tentava ajoelhar-se. No conseguiu. Sangrava muito. - Voc... - murmurou ao ver Miguel.
- Geovani esteve aqui?
Ela moveu a cabea afirmativamente. - Por que ele fez isso com voc?
Um co escapara do massacre. Apareceu na cozinha. A doutora no respondeu a Miguel.
- Diga o que aconteceu e bem depressa - exigiu Miguel. 0 olhar dela foi a resposta: tinha medo de falar.
- Algo relacionado com meu irmo?
A gorda no queria ou no podia dizer nada. Ele apontou a arma para o outro co.
A ela falou:
- Geovani... me culpou... da fuga... de seu irmo... e da moa. - Ah, fugiram! - exclamou Miguel, mais aliviado.
Ela teve foras para acrescentar:
- A moa me derrubou... Me prenderam no armrio do quarto...
Miguel gostou de ouvir aquilo. Pelo menos por enquanto estavam livres.
Ainda no cho a mulher voltou a gemer. Seu estado no era nada bom. 0 dlmata foi lhe lamber o rosto. Miguel saiu s pressas do bangal.
Depois de ouvir o relato, Ruth comentou: - Ele esteve prximo `de ns o tempo todo. - Ele est vindo pra c? - perguntou Jlio ansioso. Pausa.
- Houve um probleminha - revelou Ana. - Disse probleminha? - espantou-se Ruth. Era algo que Ana estava protelando.
- Conhece a tal mulher de cabelos vermelhos? - Claro que sim.
- Pois ela pode estar aqui.
- Aqui no Yellow? - espantou-se Jlio. - Aqui.
0 retorno do terror. - Como sabe?
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Bbados, o rptil e o inseto discutiam na gerncia da boate.
- Comeou como garom, mas tornou-se o brao direito da Ana. Ele que teve a idia de realizar esses bailes promocionais. A noite disto, a noite daquilo. A primeira 
j foi um sucesso. A noite das noivas. Todas as mulheres vieram de cauda, vu, grinalda, buqu. 0 jornal do bairro deu uma pgina inteira. Salvou o Yellow, que 
estava para fechar.
- E por que ele no ficou aqui, j que se saiu bem?
- Porque ambicionava muito mais. Aqui em trs anos j tinha chegado ao fim da linha. Ana ainda lamenta que ele tenha pedido a conta.
- Mas ela tambm se meteu com o trfico? - No sei, mas  possvel que sim.
A porta da gerncia abriu-se e o leo-de-chcara fez um sinal para que entrassem.
Entraram. Era um escritrio amplo, as paredes ocupadas por psteres de cantores famosos do passado, a maioria estrangeiros. Havia tambm a documentao da casa, 
exposta em quadros de aviso, alm de alguns trofus. Um recorte de jornal, plastificado, noticiava a maratona de dana que ali se realizara. 0 vencedor permanecera 
danando quatrocentas e vinte e oito horas. Mas no havia ningum  espera deles.
- Ser que se pode confiar nessa mulher? - perguntou Jlio. - Voc confiava na gorda e deu naquilo.
- No direi que confio cegamente - respondeu Ruth. - Mas com ela Miguel teve um convvio maior. Ana deve favores a ele. A doutora no devia nada.
- Quem lhe deu os convites?
- 0 prprio Miguel, ontem. Viramos juntos se no acontecesse o que aconteceu. Ele sempre lembrava os bons tempos aqui no Yellow.
Uma porta de fundo abriu-se e entrou uma mulher de uns cinqenta anos, de tez acentuadamente escura, que apesar de sua magreza e altura mediana ostentava certa opulncia. 
Usava um vestido de modelo oriental, vivamente estampado e um colar de muitas voltas em torno do pescoo. Algum vindo de uma baixa camada social mas que acabara 
vencendo, Deus sabia como. Olhou a Ruth e o rapaz sem nenhuma surpresa.
- Esse  Jlio, o irmo do Miguel - apresentou Ruth.
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- 0 ingresso  caro?
- Tenho dois convites na bolsa.
Ruth trocou no guich os convites por ingressos e entraram. 0 saguo estava repleto de monstros, sendo difcil identificar entre eles os masculinos e os femininos. 
No faltavam dentes pontiagu dos para se cravarem nas cartidas e enormes capas pretas esvoaantes. Algumas bruxas compareciam com suas vassouras. Uma fantasia de 
esqueleto cujas cavidades oculares acendiam e apagavam era das mais impressionantes. Algum viera de mmia, completamente enfaixado.
Atrs de um balco, dois anes, de aspecto terrvel, fantasiados de coveiros, serviam bebidas enquanto gargalhavam malignamente a cada copo ou clice que enchiam.
A msica do salo chegava at ali. No era do gnero que Jlio estava acostumado a ouvir, embora no menos quente do que qualquer rock pauleira. Um cartaz interior, 
escrito com letras vermelhas e pretas, exigindo leitura, anunciava: Noite do mambo. Jlio ento lembrou-se de que os mais velhos falavam muito daquele antigo ritmo 
da Amrica Central. Havia um subttulo no cartaz: homenagem a Peres Prado, o rei do mambo. Mas apesar daquela festa toda de cores, extravagncias e msica, e que 
parecia estar no seu apogeu, Jlio continuava deprimido. Por que exatamente Ruth o levara l?
- Vamos dar uma espiada no salo - disse ela, puxando-o pela mo.
0 salo do Yellow Mountain era enorme, tinha muitas mesas, um enorme fosso para a orquestra e apresentava algo que Jlio s conhecia de alguns programas da TV: fumaa 
produzida por
gelo seco. Para um baile de monstros, de sexta-feira 13, aquele efeito era muito adequado e contribua para a animao.
Com dificuldade, andando entre os pares mergulhados na fumaa, empurrados e empurrando, Ruth e Jlio atravessaram o salo at uma porta lateral, a gerncia, como 
indicava um lumi noso. No caminho, um peludo orangotango, talvez o macaco assassino da rua Morgue, imitado do conto famoso de Edgar Allan Poe, quis danar com Ruth, 
gesticulando grosseiramente. A moa fez um movimento de braos, como se fosse enla-lo, aceitando o convite, mas abaixou-se, num lance natural, e afastou-se dei
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xando o orangotango a danar sozinho, envolto em fumaa. Esse domnio de movimentos de Ruth, sua elasticidade graciosa e elegante, chamara a ateno de Jlio desde 
o incio da noite. Lembrou-se do salto que ela dera sobre a gorda, do trampolim invisvel, fato que nunca mais esqueceria.
Ruth abriu a porta da gerncia e entraram numa sala de espera onde dois monstros, um com cabea de jacar e outro de louva-a-deus gigante, de p, desentendiam-se 
a propsito duma despesa que com mtuas acusaes se negavam a pagar. 0 rptil e o inseto pareciam bbados, o que seus passos incertos revelavam. Subitamente surgiu 
da gerncia um homem alto, usando cala e palet, com o vigor tpico de um leo-de-chcara, pago para acabar com confuses, e comeou a sacudir pelo brao os dois 
monstros. - Ah, no querem pagar? Pois vo ver...
- Ele que pediu as bebidas - disse o jacar.
- Pedi s a primeira rodada - protestou o louva-a-deus. - Ele chamou mais trs.
0 leo-de-chcara, ainda sacudindo-os, como se fossem bonecos, ignorava os argumentos.
- Pois vo tratando de pagar j, j!
Ambos, derrotados, enfiaram a mo nos bolsos retirando cdulas amarrotadas que sem contar foram passando ao vigilante. Este, com a nota da despesa na mo, conferia 
o pagamento e quando se deu por satisfeito abriu a porta bruscamente e empurrou o rptil e o inseto para o salo, como se enojado. S ento notou a presena de Jlio 
e Ruth.
- 0 que querem?
- Falar com a Ana - respondeu Ruth. - Quem so vocs?
- Diga que  a Ruth.
0 homem entrou pela gerncia com um ar de que tinha dvidas de que Ana os atendesse.
- Quem  Ana? - perguntou Jlio. - A gerente? - A dona do Yellow.
- Vocs se conhecem bem?
- Miguel conhece. Ele trabalhou aqui quando chegou. - Fazia o qu?
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neta. E sempre me disse que, se algo acontecesse, procurasse por ele em determinados lugares.
- Esses lugares eram a penso de tia Rita, a igreja e a casa da gorda?
- Eram alguns deles. - Nos trs demos azar. Ruth no pensava bem assim.
- Pode ser que nosso azar tenha sido a sorte de Miguel, entendeu?
- No.
- Se Miguel estivesse na penso da Rita poderia ter sido preso na batida policial. Se estivesse na igreja, talvez a ruiva o assassinasse. E se passasse pela casa 
da gorda, antes de ns, quem sabe no estaria agora nas mos da gangue?
Jlio concordou:
- Acho que voc est certa. Estamos servindo para Miguel como uma espcie de pra-choque.
- Qual vai ser sua reao ao encontrar-se com ele? - Ruth quis saber - Abraos ou tapas?
- Confesso que estou com bastante raiva do Miguel.  um ambicioso doido. Um inconseqente que ps duas vidas em risco, a minha e a sua. E que j causou uma morte, 
a do sacristo. Essa sacola poder causar ainda novas mortes. No sei se o perdoarei. Subitamente o rapaz quase foi dominado pelo sono. Uma noite como aquela exauria. 
Sacudiu a cabea para afast-lo.
- Aonde estamos indo?
- A lugar algum - respondeu Ruth. - Pegamos o primeiro nibus que passou. Vamos descer e tomar um carro.
A moa ergueu-se e encaminhou-se  porta do veculo para descer na prxima parada.
Quando enfrentaram a rua ambos sentiram um frio de doer. - Por que esse frio? - disse Jlio. - Estava mais quente. -  a madrugada - lembrou Ruth. - Ela sempre traz 
surpresas. Gosto dela.
- Em Serra Branca a noite acaba cedo. Geralmente depois do telejornal. Voc costuma dormir tarde?
Ruth no respondeu. Saiu acenando.
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- Txi! Txi! Txi!
Um txi velho parou escorregando sobre os pneus. Ruth e Jlio correram e entraram. A moa disse ao motorista o nome da rua, mas Jlio, que no conhecia bem a cidade, 
no teve a menor idia do rumo que tomariam.
- E agora, pra que lado vamos?
- Voc ver - respondeu ela. - Um lugar divertido.
- Divertido? - admirou-se Jlio. - Ainda bem, depois desses em que estivemos...
A viagem foi longa e novamente Jlio sentiu sono. Desta vez mais profundo. Tombou de lado com a cabea sobre o ombro da parceira. Sonhou e viu-se em Serra Branca, 
na infncia. Ele e Miguel empinavam papagaios num campo de futebol deserto. Seu papagaio no subia muito, ao contrrio do empinado por Miguel, j nas nuvens. Invejou 
o irmo. Inmeras pessoas olhavam para o alto, sorridentes, admirando a habilidade de Miguel. Uma moa que se parecia com Ruth e que talvez fosse Ruth surgindo do 
nada aproximou-se do heri e o beijou na boca. A partir da a imagem comeou a ondular, dobrando-se, o papagaio perdeuse no cu, tudo virou um borro e Jlio acordou.
 Desculpe - disse a Ruth, envergonhado de ter dormido sobre seu ombro. Pegar no sono naquela situao era uma fraqueza. - Estamos chegando - avisou ela.
10 e  UMA HORA EM PONTO
Logo em seguida o txi parava. Ambos desceram ante uma fachada luminosa onde um punhado de pessoas, algumas estranhamente fantasiadas, faziam fila na frente de um 
guich. O nome do estabelecimento brilhava em luzes amarelas circulantes, The Yellow Mountain, que Jlio logo traduziu: A montanha amarela. - Que fantasias so essas? 
- perguntou, reconhecendo um Drcula, depois um Frankenstein.
- Hoje  sexta-feira, dia 13 - lembrou ela. - A casa est dando um baile a fantasia na base do terror.
- Mas no estamos fantasiados. - Alugam fantasias l dentro.
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- Melhor no sairmos agora. Podem fazer a volta. Ruth teve mais uma de suas idias:
- Vou ao toalete. Faa o mesmo pra que no nos vejam aqui. Jlio dirigiu-se s pressas ao banheiro. Ao olhar-se de passagem no espelho, estranhou. Algo acontecera 
com seu rosto. As linhas estavam mais duras. Parecia ter se tornado adulto em poucas horas. Tocou o rosto, examinando-o. No, a maior transformao, menos fsica, 
concentrava-se no olhar. 0 menino de Serra Branca, o filho mimado da mame, j no estava presente. Dele restaria, no mximo, um retrato no lbum de famlia. Mas 
no havia tempo para recordaes. Ele e a ex-menina de rua tinham muito ainda a fazer naquela noite.
Ao voltar ao balco do estabelecimento Jlio j encontrou Ruth pagando os cachorros-quentes.
- Temos de ir - disse ela - mas ser perigoso andarmos pela avenida. Est meio deserta. Se eles voltarem, nos vero facilmente.
Jlio deu uma espiada. De fato pouca gente circulava, apressada, pelas caladas. Se Geovani e o outro tornassem a passar... - No vejo txis - observou ele.
- E o ponto de nibus  longe, na esquina - acrescentou Ruth. - Ento vamos continuar aqui,  mais seguro.
Parecia ser mais seguro, sem dvida, mas no por muito tempo. Logo cadeiras foram colocadas sobre mesas. Algumas luzes apagadas. Um garom, sonolento, comeou a 
descer a porta de ferro ondulada. Depois, dirigiu-se a eles:
- Estamos fechando.
- No podemos comer mais um cachorro-quente? - No, o cozinheiro j foi embora.
Jlio e Ruth saram, preocupados.
- Devem estar dando voltas pelo quarteiro.
- Vamos fazer o seguinte - sugeriu Jlio. - Voc vai por uma calada, eu por outra. Esto procurando um casal.
- Talvez nem voltem. Mas tudo bem, a gente se separa. Ande devagar.
Jlio atravessou a avenida. Do seu lado via a parceira andando pouco  frente, do outro lado da via, perto de algumas pessoas. Como era elegante no seu passo cadenciado! 
A esquina estava dis
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tante ainda. Passou por ele, ligeiro, um casal com um filho, a me puxando pela mo um trpego menino de uns cinco anos. Todos tm medo da cidade na madrugada. Em 
sentido oposto vinha um bbado com um gorro enfiado na cabea. Ziguezagueava, mas depressa.
De repente, outro susto. Avistou a distncia, vindo lentamente em sua direo, o carro que vira diante do bangal. A tenso da casa da doutora voltou, transformando 
em chumbo as per nas de Jlio. A mo no bolso da cala tocou o cabo do revlver. Mas no apressou o passo, pelo contrrio, passou a andar ainda mais morosamente, 
arrastando uma perna, fingindo dificuldade.
0 carro da morte passou e Jlio continuou a andar, resistindo  tentao de olhar para trs. E assim foi, mancando, at a esquina. Ruth, que caminhara quase o tempo 
todo ao lado de
duas mulheres idosas, j havia chegado l. Jlio parou e ficou a v-Ia do outro lado.
Afinal um nibus com poucos passageiros foi se aproximando. Jlio atravessou quase correndo a avenida. Entrou no veculo logo atrs de Ruth e sentaram-se no mesmo 
banco.
- Viu o carro? - ele perguntou.
- Vi, passou do seu lado. Meu medo era que voc se assustasse e corresse.
- Fingi um defeito na perna. Acho que foi o que me salvou. - Voc est ficando muito vivo.
- Se eu corresse seria o meu fim - disse Jlio. - E voc? - Eu falei para aquelas duas simpticas coroas que tinha medo de andar sozinha pela rua. E no reparou 
que havia um carro da polcia se aproximando? Os bandidos tambm devem ter visto.
- Desta escapamos, mas cada vez me preocupa mais andarmos por a com a sacola. Quinhentos mil dlares.
- Esse dinheiro est me pesando. Parece que vamos ser assaltados a qualquer momento.
Ele quis mudar de assunto.
- Parece que nunca encontraremos Miguel. Ela apertou-lhe a mo com carinho.
- No desanime, Jlio. Ainda nos restam algumas possibilidades. Depois, Miguel no iria embora sem o dinheiro e a cader
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- Os cachorros subiram - disse um deles. - Deve ter gente l em cima. Vamos l.
- Pegue o revlver - disse o outro. - Muita ateno.
Na despensa o silncio prosseguiu por menos de um minuto. Depois, Ruth abriu a porta e descalou os sapatos, colocando-os na sacola. Foi  frente, no escuro da cozinha. 
A porta que comu nicava com a sala estava toda aberta. Na parte de cima do bangal os homens andavam. Ouviram dizer:
- Parece que tem gente presa aqui.
Ruth comeou a atravessar a sala como se flutuasse. Jlio seguia atrs. L estava a porta de entrada com a fechadura solta. Sem toc-la, passaram ao jardim. Viram 
um carro grande parado diante da casa. Ultrapassaram o porto e chegaram  rua. No dava ainda para gozarem nenhum alvio. Foram se afastando depressa, sem correr, 
Ruth descala, ele tentando pisar macio. Antes de dobrarem a esquina, olharam para trs. 0 piso superior da casa estava todo aceso.
Ento correram. 0 mais que puderam. Para se distanciarem e para gastar a tenso nervosa. Como se estivessem sendo perseguidos. Felizmente, com a rua deserta, a corrida 
desenfreada no chamava a ateno de ningum. Ao chegar a uma avenida, Ruth calou os sapatos e a atravessaram.
- Parece que estamos salvos - disse Jlio. - Foi sorte demais! - ela exclamou.
Ele enfiou a mo no bolso. - Sabe o que trouxe comigo? - 0 revlver?
- 0 revlver. Devo me livrar dele? Ruth pensou um pouco.
- No ainda. Voc sabe atirar?
- J dei alguns tiros na vida - ele confirmou.
- Eu sei atirar bem. Miguel me ensinou. Foi numa fazenda. Ele dizia que atirar todos precisam aprender, como nadar, danar e falar ingls.
- Miguel andava armado?
- Nem sempre. s vezes pode ser comprometedor. Tambm era contra a que se reagisse a um assalto. Para ele a vida vale mais que um relgio ou uma carteira cheia de 
dinheiro.
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- Ele j matou algum?
- Voc no sabe nada mesmo sobre seu irmo. Continuaram andando. Passaram ante um estabelecimento iluminado.
- Veja at a que hora se vende cachorro-quente! - ele exclamou.
- Vamos comer um? - Agora?
- Num minuto escapamos de ser assassinados, noutro comemos cachorro-quente. A vida  assim, toda imprevistos. Talvez por isso mesmo  que seja boa.
Entraram no bat que devia estar atendendo aos ltimos fregueses. Compraram dois cachorros-quentes e ficaram comendoos de p.
- 0 que ser que eles vo fazer com a gorda?
- Duvido que a matem... Precisam dela. Mas talvez ela receba uns sopapos por nos deixar fugir.
Jlio lembrou-se de perguntar o que para ele era um enigma: - Como  que teve a idia de falar no rato? Nem todas as pessoas tm medo. Foi adivinhao?
- No - ela respondeu. - Miguel me contou que a doutora tinha pavor de ratos. Como cirurgi tem sangue frio, equilbrio, mas no pode ver um rato. Quando se recuperava 
da opera o, Miguel por duas vezes teve de expulsar ratos da cozinha enquanto ela subia na mesa. Eles infestam o bairro. Apenas me lembrei disso.
- Voc representou muito bem.
- Representei bem porque eu tambm me plo se vejo um rato. Sou pior que a gorda nisso. No orfanato era uma praga. Est bom o cachorro-quente?
- Est timo.
- Veja! - exclamou Ruth, subitamente, recuando com um forte brilho nos olhos.
Jlio tambm recuou. - 0 que foi?
- 0 carro, passou o carro que estava na porta da doutora. - 0 carro de Geovani?
- Esto  nossa procura.
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Ao voltarem  sala, Jlio teve outra idia:
- No seria mais seguro arrancarmos o telefone? Miguel pode ligar e cair numa armadilha.
Ruth nem comentou nada: arrancou o fio. - Vamos.
Foi quando ouviram rudo de um carro que se aproximava. Parou diante da casa.
- Chegaram - murmurou Jlio.
Olharam-se. Um viu o pavor no rosto do outro.
9 e DEPOIS DA MEIA-NOITE
Ficaram em silncio, ambos imaginando se da rua se podia ver a luz dos abajures da sala. As cortinas pesadas talvez a vedassem. Mesmo assim Ruth desligou um deles 
e empurrou um tapete pequeno at a fresta inferior da porta. Ouviram passos, provavelmente de duas pessoas, depois um toque de campainha. 0 toque pareceu multiplicar 
o silncio interior.
Os ces comearam a latir. Um imprevisto incontrolvel e assustador.
Colaram os ouvidos na madeira  escuta. Novo toque de campainha, seguido de um terceiro. E os dlmatas latindo.
- Ser que ela saiu? - ouviram. - No pode ser. - Se saiu foi com os dois, mas para onde?
- A ordem era para reter os pivetes aqui. 0 que teria havido? - Est ouvindo os cachorros?
- Estou.
Novos toques de campainha.
- Onde aquela louca foi a esta hora!
A voz que soou em seguida denotou apreenso.
- E se dominaram a doutora? L na igreja deram uma cadeirada na Ludmila.
- Ou ela fugiu com o dinheiro. - A perua velha?
- Quando telefonou no sabia que os dlares estavam com os garotos.
A conversa passou a se expressar mais pelas pausas que pelas palavras.
- Descontente com dinheiro ela andava - o outro admitiu. - Pode ser ainda que tenha entrado em acordo com os dois... Dentro, Ruth e Jlio trocaram-se novos olhares. 
Ouvia-se bem o que se dizia do outro lado da porta, a no ser quando os cachorros latiam demais.
- Vamos tirar a dvida na marra - decidiu um deles. - Como?
- Arrebentando a porta. - Vamos, Geovani.
Esse nome provocou nos dois verdadeiro choque eltrico. - Arrebente a fechadura.
Jlio e Ruth recuaram, dando-se as mos. Um precisava da fora do outro, da energia. Logo ouviram rudos metlicos na fechadura. A moa puxou o rapaz para a porta 
da cozinha. E falou pela primeira vez durante a situao:
- No vamos deixar os cachorros passarem pra sala. Quando ela cuidadosamente abriu a porta os ces voltaram a latir e com muito mais estridncia. Ruth entrou na 
cozinha, seguida de Jlio. Estava s escuras mas ela se arriscou a acender a luz. Havia uma porta, no fundo, que devia dar para um quintal ou jardim. Mas, azar, 
estava fechada a chave.
Jlio apontou para outra porta, ao lado do fogo, e abriu-a. Era uma pequena despensa, ocupada por prateleiras cheias de alimentos enlatados ou embrulhados. No 
havia outro lugar para se esconderem. Ruth desligou a luz e os dois entraram no estreito e abafado compartimento. Para caberem tinham de ficar colados, corpo a corpo. 
Jlio sentia o perfume que ela usava e, logo mais, as batidas de seu corao. Atrs da porta da despensa os dlmatas fungavam.
- Os ces vo nos denunciar - temeu Ruth.
Minutos depois ouviam um forte estalido. A porta da rua cedera. A a tenso chegou ao mximo. Ouviram vozes j na sala. - Abajures acesos. Algum deve estar aqui.
- Vamos subir.
- No,  melhor olhar primeiro a cozinha.
A porta da cozinha foi aberta. Os dlmatas escaparam, latindo. No mesmo instante Jlio e Ruth ouviram o tlac do comutador: acenderam a luz.
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Num salto acrobtico, Ruth projetou-se sobre a doutora.
- Cuidado que atiro - ele ameaou bem seguro dentro da situao.
A doutora parou mas continuava uma fera.
- Agora suba a escada - ordenou a jovem. E explicou a Jlio: - Vamos trancar ela num quarto l de cima. Vamos, se mexa, gorducha.
A mdica continuou no mesmo lugar. Era humilhante acatar uma ordem que ela prpria dera h minutos.
- No vou sair daqui - avisou. - Sente-se na cadeira, dona.
Ela no sentou e disse outro palavro.
- Acho melhor dar um tiro nela - disse Jlio imitando algum que de fato tivesse essa inteno.
- Tambm estou achando - concordou a parceira no mesmo tom de representao. - Na perna. No somos assassinos.
A dona da casa moveu-se desta vez. - Eu subo.
- Ento suba, baleia. E depressa. Vamos, Jlio. Ela foi subindo os degraus, mas no calada.
- Vocs no iro longe. Vo ser apanhados ainda esta noite. - Depressinha, madame.
Chegaram ao piso superior.
- Melhor trancar ela no banheiro - sugeriu Jlio. Ruth teve outra idia.
- Ou num armrio embutido. Sem janela para ela pedir socorro.
Empurraram a porta de um quarto, mas s no seguinte viram um armrio. Ruth abriu-o.
- Entre.
A doutora hesitou. -  muito estreito.
- Quem mandou engordar tanto? Force um pouquinho - ordenou a moa. - Voc no pode esperar muita clemncia de pessoas que traiu.
Ela entrou no armrio e Ruth girou a chave, que guardou na bolsa.
- Vamos depressa. Devem estar a caminho. E  melhor apagar as luzes para que pensem que no h ningum em casa.
- Passem. A sacola e a caderneta.
No  num segundo que se compreende uma virada de situao. Todos os sentidos, um a um, precisam ser avisados. O que os olhos vem no  instantaneamente assimilado. 
Apenas perso nagens do cinema e do teatro reagem no momento exato das novas circunstncias.
Para lhes facilitar o entendimento a doutora mostrou o revlver que a mo direita ocultava.
Ruth lentamente entregou a sacola  doutora.
Jlio retirou a cadernetinha do bolso e fez o mesmo. O que viria depois?
- Subam as escadas.
Antes de mat-los seriam presos num quarto, imaginaram. Jlio lembrou-se do telefonema. Certamente ela consultara os superiores sobre o que fazer. Como eles ainda 
demorariam, tivera de det-los. Sentia-se que essa misso lhe era penosa.
- Subam, vamos.
- A senhora j tem o que queria. Deixe a gente ir embora - pediu Jlio.
- Obedeo ordens - respondeu o barril cortado ao meio. - J que vo nos matar - disse Ruth - que faa a senhora isso.
Foi a vez da doutora de no entender. - O que est dizendo?
- Que se vo nos matar, faa isso a senhora. Eles preferem armas brancas, no? Para no fazer rudo. A senhora ter de acordar a vizinhana.
- Chega de papo, moleques.
- A gente no vai subir a escada - disse Jlio firmemente. - Parecia um palmo mais alto. - No vai mesmo.
- Esto pensando que no tenho coragem de atirar?
- Estamos pensando que temos mais chance aqui embaixo do que presos num quarto - rebateu o rapaz com uma coragem que surpreendeu tambm a ex-menina de rua.
- Pois bem, vamos esperar aqui mesmo. Eles levaro vocs para cima  fora.
Miguel contara a Ruth muita coisa sobre a doutora, o que lhe deu uma idia talvez absurda. Mas tudo devia ser tentado.
- Se me permitir vou subir no sof - disse ela, nervosa. - Por qu? - a gorda estranhou, tanto quanto Jlio.
- Porque posso ser muito corajosa mas de rato tenho medo - explicou Ruth, j sobre o sof, num misto de pnico e nojo. A doutora, incontinenti, olhou para o cho 
e comeou a erguer ora um p ora outro como se tivesse receio de que o rato lhe subisse pelas pernas, o que, para quem pesava cento e vinte quilos, era ginstica 
que envolvia risco de queda.
Jlio, que em poucas horas de convivncia com a namorada do irmo, j aprendera a ser seu partner, companheiro de palco em histrias de terror, abaixou-se como se, 
vendo o roedor, sofresse o mesmo susto. Tambm procurou uma poltrona ou sof para subir. Ento desceram as escadas os dlmatas, atrados pelo sapateado da patroa, 
e fungando, com os focinhos a roar os tapetes, como se disputassem entre si um naco de carne, completaram a iluso de que realmente havia um rato na sala.
Com o revlver na mo, mas sem apontar para lugar algum, a doutora prosseguiu sua dana grotesca sem perceber que Ruth se aproximava dela, andando sobre o sof.
Jlio naturalmente sabia que a parceira tentaria alguma coisa e estava atento, porm no sabia o qu, mas o pressentiu ao vIa na extremidade do sof, erguendo os 
braos como se fosse voar. E foi o que ela fez: voou. Num salto acrobtico projetouse sobre a dona da casa, que mal plantada no cho, devido ao sapateado e ao efeito 
surpresa, perdeu totalmente o equilbrio, desmoronando no tapete sobre um dos cachorros. Machucado, o pobre dlmata logo se afastou, a ganir, seguido pelo outro, 
tambm assustado.
O rapaz entendeu qual a parte que lhe cabia da ao: arrebatar o revlver. Foi fcil porque na queda a gorda o soltara. L estava ele sob uma mesa de tampo de vidro. 
Pegou-o enquanto Ruth se ocupava da sacola e da cadernetinha tambm largadas. Depois fechou uma porta, talvez da cozinha, por onde os dlmatas haviam penetrado.
A doutora ps-se de p o mais depressa que pde mas j era tarde.
- Fique calminha - ouviu da moa. - No h rato algum. A mdica disse um palavro e fez meno de avanar sobre Jlio.
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- No digo que o perdoariam, isso no - disse a doutora -, mas eu conseguiria que sasse da cidade em paz. Uma troca. - No posso falar por ele - esquivou-se a moa.
=Seria uma proposta tentadora para quem corre risco de vida - ponderou a doutora, j mordiscando outro petisco. Jlio no sabia o que dizer, mas Ruth sim.
- Sem dinheiro Miguel no iria longe e s a muita distncia poderia sentir-se seguro.
- Uma coisa no entendo - refletiu a mdica. - Se est de posse de uma fortuna, por que no foge? Por que ainda permanece na cidade?
Porque o dinheiro no est com ele, nem o dinheiro nem a caderneta, pensou Ruth sem dizer nada. Por enquanto, a quem interessasse, a sacola do marinheiro Popeye 
apenas transportava roupas.
- Porque talvez queira abraar sua namorada e o irmo. Ele est nisso, mas  muito sentimental.
- Isso  verdade, rapaz sensvel - concordou a doutora. - Ns nos demos bem. E ele falava a toda hora de voc.
- Falava? - entusiasmou-se Ruth duma forma que deixou Jlio enciumado.
- E mostrava-se cheio de boas intenes - garantiu a dona da casa, sorridente. - Tome outro coquetel, no faa cerimnia. - Obrigada - respondeu Ruth. - Mas no 
quero. Estou pensando noutra coisa.
- No qu? - perguntou a doutora, parando de mastigar. - Procurar Miguel noutro lugar. De onde eu estiver, telefonarei para c. Posso anotar seu nmero?
Enquanto Ruth, de p, perto do telefone, anotava o nmero telefnico, a doutora dizia:
- Por mim podem esperar por ele o quanto quiserem. Como disse, amanh, sbado, no trabalho. Assim eu teria oportunidade de ajud-los. Em minha casa estaro mais 
protegidos.
Era um tipo de deciso em que Jlio no queria influir. Ruth  que sabia o rumo que deviam tomar.
- H outros lugares onde ele pode estar - repetiu Ruth. - Acabo de lembrar de um.
- Qual?
- Certo endereo na periferia. No lembro a rua e o nmero. - Vamos? - perguntou Jlio.
- Antes quero ir ao toalete - disse Ruth. -  l em cima. Virando a escada  direita.
Quando Ruth subiu a doutora logo foi telefonar. No da sala, mas de uma extenso. Jlio ouviu o rudo do disco. Sozinho na sala, enfiou um petisco na boca. Um dos 
dlmatas fungou. Serviu-lhe uma empadinha. Sempre gostara de cachorros. E aquele era um gluto. Serviu-lhe outra. A moa desceu, apressada. - Acha mesmo que devemos 
ir embora? - perguntou Jlio. - No podemos esperar Miguel at o amanhecer. De onde estivermos, telefonarei.
- Tem idia de onde iremos?
- Lembrei de mais uma probabilidade. Onde est a doutora? - Foi telefonar.
- Vou comer um petisco - decidiu Ruth, como se surrupiasse um do pires. - Adoro essas coisas, embora engordem. A doutora voltou  sala.
- Ento vo mesmo?
- J e obrigada pela ateno.
- No querem esperar mais meia horinha? - No, temos alguma pressa.
- Se quiserem, fao um sanduche. - Estamos indo, doutora.
- Ento me deixem lhes dar um presente. - Presente?
- Uma lembrancinha. Volto j. Jlio e Ruth se entreolharam.
- Ela  a gentileza em pessoa - comentou ele. - As pessoas gordas tm bom corao.
- J ouvi dizerem isso. So muito pacficas.
A doutora retornou. Ficou olhando para eles muda, respirando de forma a acumular energias. A mo direita ocultava algo nas costas. Parecia uma cena congelada de 
televiso, quando ningum se mexe.
- Passe a sacola - disse.
Nenhum dos dois entendeu e Ruth perguntou num fio de voz: -- 0 qu?
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e a um mundo de almofades coloridos com certeza de agrado dos dlmatas. Depois daquela maratona era um alvio, uma recompensa, pisar uma sala como aquela.
- O que querem beber? - perguntou a dona da casa preocupada em oferecer uma boa acolhida. - Eu no bebo nada, pois passo horas, todos os dias, operando. Mas o meu 
bar no  de se jogar fora.
- Eu mesma posso fazer um coquetel - apresentou-se Ruth, j se colocando atrs de um balco. - Jlio, desta vez, nada de refrigerantes. Precisamos relaxar um pouco.
- Fique  vontade - permitiu a doutora. - Miguel, no ms que passou aqui, preparou dezenas de coquetis.
- E com quem pensa que aprendi?
- Miguel  um rapaz encantador. E seu irmo parece que tambm .
- Sou muito mais tmido que ele - disse Jlio. - Alis, falando nele...
Ruth interrompeu-o:
- No se precipite, Jlio. Tudo tem a sua hora. Espere. Vamos tomar nosso coquetel, a no ser que a doutora esteja com sono.
- No opero aos sbados - disse ela. - Amanh posso dormir at tarde.
- Em que hospital a senhora trabalha? - perguntou Jlio. - Em hospitais populares. Se operasse somente gente rica, moraria num bairro melhor que este.
Ruth trouxe o coquetel de Jlio, no qual mergulhara uma cereja. - Experimente.
Jlio experimentou.
- Como  doce! Parece bebida para crianas.
- V nessa. Bastam trs para embriagar - preveniu Ruth, sentando-se. - Agora a gente pode tratar do assunto. A senhora tem visto Miguel?
- Se tenho visto Miguel? No. - E ele tem telefonado?
- Por qu, aconteceu alguma coisa?
- Ele est sendo caado - revelou Ruth, tentando no ser dramtica. - Pensamos at que pudesse estar aqui. Miguel confia muito na senhora.
- Disse caado? No seria a primeira vez. - Mas desta vez no pela polcia.
Muito sria, ela disse:
- No estou entendendo.
Ruth tomou outro gole do coquetel. Jlio engoliu todo o seu. Atrapalhava-lhe segurar o clice e precisava de toda a lucidez para acompanhar o rumo da conversa. No 
entanto, tranqilizava-o saber que a doutora operava gente humilde.
- Miguel se indisps com o grupo. - Ah...
- Fez algo que no devia ter feito. - Posso saber o qu?
Ruth no fora at l para esconder verdades.
- Apoderou-se de quinhentos mil dlares. Dinheiro do trfico. Houve um vazio na conversa que a surpresa dona da casa preencheu assim:
- Querem comer alguma coisa? - perguntou, levantando-se. Havia uma diversidade de petiscos sobre pires no bar. - No bebo mas como um bocado, como j devem imaginar 
- disse. - E quando surge um problema, algo a resolver, a  que a fome vem. - Voltou com dois pires cheios. Tornou a sentar-se com todo seu peso. - Ento ele se 
apoderou de quinhentos mil dlares!
-  isso a.
- E naturalmente sumiu?
- Espervamos encontrar ele aqui - disse Ruth. - E talvez esteja a caminho.
- Pode ser que esteja mas no sei. Por que viria?
- Para encontrar comigo e com seu irmo. Houve um desencontro. No apartamento onde morava com Jlio, e no meu, no poder aparecer porque eles estiveram nos dois. 
Retornar seria arriscado demais.
A doutora mordeu um petisco. Um dos dlmatas fungou e recebeu uma bolachinha.
- Ele estaria pensando em devolver o dinheiro? - No sei.
- Se sua inteno  essa pode contar comigo - garantiu a gorda senhora.
- Mesmo devolvendo o dinheiro o matariam - assegurou Ruth. -  a lei deles.
- Bem, sua casa  um dos lugares onde pode estar. L vem um txi - disse Ruth, erguendo o brao.
ENQUANTO ISSO...
Um jovem simptico e bem vestido desceu de um txi e foi entrando num casaro quando dois policiais o detiveram.
- Aonde vai, moo?
- Comer um vatapazinho. No  aqui a penso de uma tal Rita Baiana que consta do guia turstico de So Paulo?
- No momento ela est ausente - disse um dos policiais, irnico. - Fechamos a penso.
- Por qu? Ela abusava do azeite de dend? - brincou o rapaz. - De fato aumenta o colesterol.
- No somos da Sade Pblica.  que ela se dedicava a um comrcio paralelo.
- Jogo do bicho? - Drogas.
- Drogas? - repetiu o moo como se cuspisse. - Mas no era uma penso familiar?
- Voc conhecia essa Rita?
- No - respondeu o moo. - Vi o nome dela no guia e resolvi arriscar. Adoro comidas exticas.  uma espcie de mania. No h restaurante rabe, hngaro, coreano 
e chins que no conhea. Os baianos so timos mas pem pimenta demais. A na avenida tem um restaurante grego, conhecem? Os gregos fazem muito barulho, quebram 
pratos, mas tambm tm boa culinria. Vou at l. Boa noite!
0 rapaz parou um txi e deu um endereo ao motorista. No muito distante desceu diante de uma igreja. Foi entrando. Para sua surpresa viu muita gente l. Alguma 
missa noturna? Foi quando ouviu:
- Apunhalaram o sacristo.
0 moo, empurrando um e outro, aproximou-se de um corpo cado. Ajoelhou-se ao lado dele.
- Lucas, Lucas...
Dois homens pegaram o sacristo e colocaram-no numa maca. Chegara a ambulncia.
Um tira segurou o moo pelo brao. - 0 senhor  amigo dele?
- Amigo propriamente no. Sou o regente do coro da igreja. Vim para o ensaio. Mas no vi nada. Solte meu brao, pelo amor de Deus, no estou me sentindo bem. Acho 
que vou desmaiar. No estou habituado a coisas assim.
0 tira soltou o brao do rapaz mas ele no desmaiou. Num minuto estava na rua e parava outro txi.
8 e QUASE MEIA-NOITE
Jlio olhou a construo charmosa e elegante, e pensou que se os pais a vissem iriam cham-la de bangal. Mas na So Paulo de hoje ningum devia conhecer o significado 
dessa palavra que ele ouvia desde pequeno.
Ruth tocou a campainha. Latidos de ces. - Ela tem dois dlmatas - contou ela. - O marido dela faz o qu?
-  uma solteirona - respondeu a moa. - Por aqui tem fama de ser uma excelente cirurgi.
A porta se abriu e os dlmatas, com suas manchas pretas, acesos, apareceram no jardim fronteiro saltando e latindo. Uma mulher de meia-idade, baixa e gorda, como 
um barril cortado ao meio, lembrando ilustraes de livros infantis, de bluso e cala comprida, surgiu no retngulo iluminado.
- Quem ?
- Eu - disse a moa. - Ruth. A namorada do Miguel. Lembra-se?
- Claro! - exclamou a doutora aps uma pausa. E foi abrir o porto. - No tenham medo que eles no mordem.
- Este  Jlio, irmo do Miguel - apresentou Ruth.
- Muito prazer. Eu e seu irmo somos muito amigos. Vamos entrando.
Os trs entraram no bangal acompanhados pela ruidosa cachorrada, que no parava de saltar, numa recepo festiva. - Esta casa  uma gracinha - disse Ruth.
E era mesmo, um ambiente fofo e aconchegante, graas ao revestimento de lambris, imitando o interior de um iate de luxo,
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- Mas como posso saber se tem bom gosto? No quero que Miguel me veja com cara de pamonha. Preciso urgentemente retocar a pintura.
- Se  to importante, retoque. - Na rua  impossvel.
- Onde, ento?
- Preciso de luz. Ah, o que  aquilo? - perguntou Ruth apontando para um luminoso da esquina.
BRUXELAS, A CAPITAL DOS BONS DOCES
- Parece uma confeitaria - comentou. - Deve ser, sim.
- Vamos at l.
Entraram e Jlio sentou-se no balco para tomar um refrigerante, enquanto Ruth se dirigia ao toalete feminino. Ele estava com a mesma sede de quando escapara da 
penso. Sem dvida viera de Ruth, de sua personalidade de ex-menina de rua, a fora para atacar a assassina de cabelos vermelhos com tamanha deciso. Sempre fora 
hesitante, desde o colgio. No se sara bem nos esportes devido a isso. Passo ou chuto em gol? No chutava nem passava a bola. Naquela noite chutara  marcara um 
gol. Estaria nascendo outro Jlio?
Eh, quem era aquela atriz de cinema? Em que filme a vira atuar? E no  que aquela beleza toda, coisa nunca vista em Serra Branca e adjacncias, caminhava em sua 
direo? E ainda sorria para ele, com olhos, lbios e dentes!
- Agora quero algo gelado. Pea ao garom. 0 que foi? Ficou bobo?
- Ruth...
- Mas que cara  essa? Viu de novo a ruiveta diablica? - Eu  que pergunto. 0 que fez na cara?
- Apenas me pintei. Estou parecendo gente, no? - Est deslumbrante, garanto que nunca...
- Jlio, deixe de tolice. Vamos tomar o refrigerante e cair fora. Eu no lembrava onde devamos ir, mas enquanto me pintava tudo ficou claro e j podemos zarpar.
- Aonde vamos?
- Passar pela casa da doutora. Ela cuidou de Miguel uma vez. - Ele esteve doente?
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- No, quando levou um tiro.
- Miguel j foi baleado? - espantou-se Jlio.
Enquanto Ruth tomava o refrigerante e depois, na rua, ambos procurando um txi, ela contou uma histria sobre a qual Jlio, l no interior, jamais tivera notcia. 
Fazia dois anos que Miguel e mais dois traficantes haviam mantido um cerrado tiroteio com a polcia num salo de danas, fechado, em seu dia de folga. Esperavam 
as pessoas s quais iam entregar a encomenda, as drogas, um pacote avaliado em milhares de dlares, quando no lugar delas surgiram em silncio trs viaturas policiais 
fortemente armadas. 0 que se acreditava que fosse um negcio tranqilo tornou-se verdadeira batalha. Miguel foi o primeiro da quadrilha a resistir, protegendo-se 
atrs de mesas, numa barricada. Um traficante chileno, que compunha o trio, depois de ferir dois policiais, levou um balao e caiu morto. Logo em seguida Miguel 
era atingido na perna. 0 terceiro, vendo-se sozinho, ergueu os braos e entregou-se. Miguel, porm, mesmo atingido, continuou a atirar sem d
 escanso e acabou encontrando uma porta de fundo pela qual desapareceu. A polcia iniciou ento uma busca pelo bairro inteiro. Perda de tempo, pois Miguel no fugira 
do salo. Apesar das dores que sentia e da dificuldade de movimentos, refugiara-se no telhado. E l ficou at de madrugada quando a polcia j se retirara das redondezas.
- Ao amanhecer apresentou-se aos seus chefes com o pacote de p.
- E a bala na perna?
- A  que entra a doutora. Miguel no podia procurar um hospital. Teria de explicar a origem do ferimento, feito com arma exclusiva da polcia. Levaram-no para 
a casa da doutora, que tem no poro mesa cirrgica e todos os instrumentos. Ela lhe tirou a bala e deu-lhe abrigo at que ficasse completamente recuperado. Foi um 
bom trabalho porque no ficou manco, como se supunha. - E eles se tornaram amigos?
- Sim. Miguel passou a visit-la de quando em quando. Numa dessas visitas, fui tambm.  uma coroa muito simptica. -  da quadrilha?
- Presta servios mdicos nas emergncias. - Ser que o Miguel est com ela?
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- Pobre Lucas. Um homem to bom... Morto enquanto rezava.
Ficaram em silncio pensando talvez na mesma hiptese. Se no tivessem ido  igreja ele teria morrido?
- Acha que ela nos seguiu? - perguntou Jlio.
- Lembra que Lucas disse ter sido visto pela ruiva nas imediaes da igreja?
- Lembro.
- Bem, ela sabia que Miguel e ele eram amigos - ponderou Ruth. - No deve ter sido difcil prever que a igreja seria um ponto de encontro entre os dois numa emergncia. 
Imagino que foi rondar a igreja, observando quem entrava. Ento nos viu e me reconheceu. Quando fomos para a sacristia, deve ter ido esperar na igreja. Se sassemos 
sem a sacola, entraria na sacristia e mataria o sacristo da mesma forma, supondo que o dinheiro e a caderneta tivessem passado para as mos dele.
- Mas no aconteceu assim.
- Ela viu Lucas rezando no altar. Se ele voltasse para a sacristia, a bruxa teria de se defrontar com trs. Vendo que a igreja estava deserta no momento, matou-o 
e foi fazer o que jul gava mais fcil: nos arrancar o dinheiro e os endereos. E tudo teria dado certo seno fosse sua cadeirada. Que pancada!
Jlio teve uma lembrana preocupante.
- E se Miguel chegar e for entrando? Vai topar com o corpo de Lucas, podendo at se comprometer. Principalmente se a ruiva ainda estiver l, impossibilitada de andar. 
Ela  bem capaz de acus-lo, s para livrar a cara.
Ruth tomou uma deciso.
- Isso pode acontecer. Tem razo. J vi que voc tem cabea. Vamos descer e telefonar.
- Telefonar para quem?
- Para a polcia. Vendo polcia  frente da igreja Miguel no entrar.
Desceram do nibus no prximo ponto e andaram uma quadra  procura de um orelho. Ruth sabia de cor o nmero da polcia. Miguel lhe ensinara que era indispensvel. 
Depois de esperar que um bbado conclusse seu telefonema, fez a ligao.
- Polcia? Quero informar que acabaram de matar um homem numa igreja.
Com muita clareza Ruth contou ao planto que h quinze minutos estava sozinha na igreja do bairro tal, rua e nmero tal, quando tinha visto uma mulher de cabelos 
vermelhos, alta, ves tida de preto, esfaquear o sacristo, que rezava ajoelhado diante do altar. Assustada, e como no havia ningum mais no templo, sara s pressas 
para chamar um guarda. Mas no encontrando nenhum pelas redondezas, resolvera telefonar.
- Meu nome? Olhe, no posso dizer. Desculpe. Tenho medo de vinganas. Depois, quem ir me proteger? Acho que j fiz a minha parte. Boa noite.
Eu dei a cadeirada mas ela no perde em matria de iniciativa, pensou Jlio. Talvez tivesse sido Ruth que, apenas com sua presena, lhe emprestara a fora para derrubar 
a assassina. Ela ou ento seu anjo da guarda.
- Gostaria de estar na igreja para ver a policia chegar - disse. - Espero nunca mais pr os ps l - comentou a moa. - L morreu uma das poucas pessoas boas que 
conheci na vida. E foi tambm onde passei meus piores momentos.
- Voc voltaria a seu apartamento?
- Estamos numa estrada sem retorno, garoto. O caminho  pra frente.
- Outra vez me chamando de garoto. Pare com isso duma vez se no deixo voc sozinha.
- Desculpe. Depois da cadeirada voc no  mais um garoto.  um homem de verdade. Mas nossa sorte foi termos topado com a ruiva, no com Geovani. Ele  do tamanho 
de um guarda-roupa. - Bem, qual  o prximo passo?
- Continuaremos tentando contato com Miguel. - Isso eu sei, mas como e onde?
Ruth fez uma cara engraada.
- Acha que fiquei feia com os sustos todos e a corrida? Devo estar horrvel.
- No est.
- A rua est muito escura, voc no pode ver.
- Voc continua bonita - disse Jlio, encarando-a. - Jura?
- Por que ia mentir? Uma gatona.
        - Mas quando se est preso  diferente. A fantasia tem                de rua, driblou a mulher e correu para a porta. Mas no chegou
        ossos. E o que se inventa em situaes assim nos acompanha sempre.                a sair da sacristia. Foi segura por duas mos de ferro.
        Jlio comeou a andar em crculos como o sacristo fizera.                - Me d isto aqui, franguinha!
        - Ele est demorando demais. A gente devia ir ver.                A prpria Ruth, vencida, no notou o que aconteceu.
        - Estava pensando nisso.                Jlio, gil como uma figura de desenho animado, vendo a
        - Vamos?                ruiva de costas, pegara uma cadeira pesada e a vibrara na cabea
        - Vamos.                vermelha. Com fora. Com dio. Com tudo.
        Mas ouviram passos e no se moveram. Seria Lucas ou o                A mulher cambaleou, s no caindo estatelada porque se
        prprio Miguel?                
        Algum apareceu lentamente  porta da sacristia como quem                apoiou na mesa. Ficou grogue, fora do ar.
        fosse apenas espiar. Era uma mulher alta, sem idade, vestida de                Ruth e Jlio dispararam pela porta, entrando pelos fundos
        preto, que mais chamava a ateno pelos bastos cabelos vermelhos.                da igreja. Diante do altar, tombado, com as pernas encolhidas
        Oh... exclamaram os dois sem emitir sons.                de quem estivera rezando, e sobre uma poa de sangue, estava
        Ficou a olh-los sem proferir palavra, curtindo, talvez, a                Lucas. No havia tempo para lament-lo. Correram, sem olhar
        impresso inesperada que causava. Jlio e Ruth tambm nada dis                para trs, pelo corredor que dividia os dois blocos de bancos.
                        
        seram, como crianas diante de uma assombrao. Imveis, nem                No viram ningum. A ruiva certamente esperara que o ltimo
        bocas nem pernas.                fiel sasse para golpear o sacristo.
        - A brincadeira acabou - disse a ruiva, com sotaque estran                Ao chegarem  rua ouviram onze badaladas.
                        
        geiro e como quem apenas constata. - Voc, me passe essa                
        sacola. E com qual dos dois est a agenda?                1 e DEPOIS DAS ONZE
        Ruth caiu num abismo mas uma fora a projetou de novo                
         superfcie.                
        - Quem  a senhora? - perguntou, formalmente, camu                Como havia menos movimento na rua Jlio e Ruth logo
                        
        flando o susto, j a um passo da sacola deixada sobre a mesa.                dobraram a esquina. O grande temor de ambos, de que a assas
                
        - Isso no interessa, mocinha. A agenda.                sina ruiva estivesse acompanhada, felizmente no se comprovou.
        - Viemos visitar o sacristo - disse Ruth, enfiando a mo                J sem correr, os dois caminhavam com a respirao descontrolada.
        pelas alas da arca do tesouro.                - Vamos pegar qualquer nibus - disse Ruth.
        - Seu amigo sacristo est viajando. Viagem urgente. Nem                
        teve tempo de se despedir de vocs.                Passavam muitos nibus quase vazios quela hora. Pegaram
        - Viajando? Para onde? - perguntou Jlio, realmente no                o primeiro que parou e sentaram-se longe dos passageiros. Olha
                
        entendendo o sentido oculto da frase.                ram-se com mtua admirao. Mas foi a moa quem falou:
        - Para o Reino dos Cus - respondeu a ruiva. - Algum                - Como teve a idia de dar a cadeirada nela?
        lhe espetou uma faca nas costas enquanto rezava.                - No sei.
        - Por qu? -                
        perguntou o rapaz, horrorizado, sentindo                - Foi logo que ela entrou na sacristia ou quando?
                        
        se perdido.                - Agi assim, sem pensar. Era preciso fazer qualquer coisa.
        - Porque sabia demais, suponho - disse a mulher de preto,                Ruth continuava admirada.
        dando um passo em direo de Ruth para lhe arrebatar a sacola.                - Eu j estava entregando os dlares para ela.
        Ruth substituiu a menina sonhadora das cartas do orfanato                - Nem pensei nos dlares. Estava com raiva. Fiquei louco
        pela mocinha rebelde da fuga. Numa ginga de corpo, de moleca        a        quando entendi que tinha matado o sacristo.
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mais longe da polcia... Sou fichado. Se me pegam terei de ser sacristo na penitenciria. Quanto  quadrilha, s Ludmila, uma bruxa de cabelos vermelhos, me viu 
uma vez, nas redondezas.
- Mas continuou amigo de Miguel? - perguntou Jlio.
- Um dia ele me encontrou na rua e, ao saber que eu era sacristo, caiu na risada. Porm jurou que no contaria a ningum sobre minha nova profisso. E passou a 
me visitar aqui de vez em quando. Disse que tambm ia abandonar o trfico. Mas no para viver numa igreja. Preferia hotis  beira-mar. Ia fazer isso depois de um 
grande golpe.
- Ele j deu o golpe - revelou Ruth. - Est nesta sacola. Mas a gangue anda atrs dele. Quer o dinheiro e a caderneta de endereos.
O sacristo ficou apreensivo. Roubar traficantes equivalia a uma condenao  morte.
- Miguel fez uma grande besteira. - Fez mesmo - concordou a moa. - Mas onde ele est agora?
- No sei. Estivemos na penso de tia Rita, onde ele costumava passar. No estava. Por azar houve uma batida policial e quase nos apanham. J pensou a polcia me 
pegando com a sacola? - Voc acha que ele vem para c?
- Quando ele me trouxe  igreja, e nos apresentou, foi para que eu conhecesse um de seus esconderijos, em caso de fuga precipitada. Miguel sempre pensa em tudo.
O sacristo levantou-se e comeou a andar de um lado a outro como se a ao energizasse seu pensamento. A tranqilidade do seu mundo de paz fora rompida. Isso lhe 
era desagradvel mas tinha de ajudar o amigo.
- Tudo bem - disse. - O jeito  esperar pelo Miguel. Mas se o pegarem ou se j o pegaram o que ser de vocs? Eles no vo se satisfazer apenas com a vingana. Vo 
querer a caderneta e o dinheiro.
Ruth concordou com um movimento de cabea.
- Eu e Jlio estamos correndo tanto perigo quanto Miguel. Mas no podemos fugir antes de encontrar com ele. Esta  a situao. - Uma situao em que tudo est nas 
mos do Senhor. - Mesmo no sendo religiosa admito isso - disse Ruth.
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- Vou rezar - anunciou o sacristo. - L, diante do altar.  o que posso fazer. A f pode no remover montanhas mas s vezes abre uma sada entre elas. Fiquem aqui 
e gostaria que rezassem tambm.
Jlio concentrou-se para rezar, mas Ruth no. Na ausncia de Lucas sentiu-se inquieta, menos protegida. Pensava no que fazer se a gangue liquidasse Miguel. Que destino 
daria  agenda
e ao dinheiro? Havia uma pia com copos. Foi at ela, encheu um copo de gua e bebeu.
- No consigo rezar - declarou Jlio, levantando-se. Foi beber gua tambm.
- Como o medo seca a boca! - exclamou Ruth. - Voc est com medo?
- Pensa que sou feita de ao? Estou morrendo de medo. - Gostei do sacristo - comentou Jlio.
-  um amor de pessoa. Ningum diria que j foi traficante. Est completamente regenerado. Foi uma pena no ter conseguido influenciar Miguel.
- A esta altura Miguel deve estar arrependido.
- Sei l. Eu o conheo. Ele arriscou. Seu Deus  a grana, o dinheiro - disse Ruth.
O receio que Lucas manifestara atazanou Jlio. - Se matarem Miguel, o que faremos?
- Vamos pensar no melhor. Que Miguel chegue. Depois a gente resolve o resto.
Jlio tomou mais um gole de gua.
- No acha que o sacristo est demorando?
- No sei quantas ave-marias e padre-nossos est rezando. Talvez mil.
- Deve ser um conforto ter tanta f.
- Voc no disse que tinha uma irm freira?
- Era brincadeira. s vezes invento que tenho parentes. No s para os outros. Para mim mesma. - Sempre o orfanato: - No orfanato eu escrevia cartas para tios e 
tias que nunca tive. Havia uma, inventada, que era a mais ntima. Tia Conceio. Eu a imaginava gorda, com uma pinta no rosto e sempre vestida de azulo. Quando 
me visitava, trazia doces e frutas...
- Eu tambm imaginava muitas coisas na infncia.
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Jlio percebeu que uma pessoa aproximava-se lentamente. Era um homem de uns trinta anos, cara redonda e bastas sobrancelhas. Parou diante deles.
- Boa noite! - cumprimentou.
- Boa noite - respondeu Ruth. - Este  Jlio, irmo do Miguel. Jlio, ele  o sacristo da igreja.
O sacristo estendeu a mo ao rapaz num gesto muito cordial. - Lucas - apresentou-se. - Estavam me esperando h muito tempo?
- Nem dez minutos - disse Ruth.
- Eu estava separando as hstias para a missa de domingo. - Est sozinho?
- Estou. Padre Joo acabou de sair. Vamos at a sacristia? Ruth levantou-se e ela e Jlio acompanharam o sacristo. - Que calma! - exclamou ela. - Isto parece a 
sala de espera do cu!
Jlio no se lembrava de ter estado numa sacristia antes. Pareceu-lhe uma coxia teatral, o lado de trs de um palco. Um espao comum de servio s costas de Deus. 
Havia uma mesa e poucas cadeiras, onde sentaram-se.
- Algum problema? - perguntou Lucas.
- Estamos procurando Miguel - explicou Ruth. - E aquela gente tambm. Estiveram no apartamento onde Jlio mora e no meu. Escapamos por um triz. Imagine, escalaram 
Geovani para nos pegar.
O sacristo olhou para Jlio. - Ele sabe de tudo?
- Ficou sabendo h umas duas horas - disse Ruth. - Chegou do interior faz pouco tempo.
- Voc deve estar chocado - comentou Lucas. Era o momento de Jlio saciar sua curiosidade. - No podia imaginar Miguel amigo de um sacristo. Lucas sorriu suavemente.
- No nasci sacristo. Fui um pecador como ele. Lidava com trfico.
- O senhor?        0 sacristo olhou para Jlio:
- E com outras coisas tambm. Mas a conscincia pesava        ~        - Ele sabe de tudo? e vim para c. Faz dois anos. Aqui estou mais perto de Deus e
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Ambos dispararam pelo meio da rua e entraram no carro. Ruth deu logo o rumo ao motorista mas Jlio no ouviu. Nem adiantaria. Seu destino at aquele momento era 
dirigido por ela. A viagem foi longa, dificultada pelo trnsito.
-  sempre assim s sextas-feiras - disse Ruth. - Todos saem com seus carros para passear ou passar o fim de semana fora. Eu e Miguel muitas vezes viajvamos s 
sextas.
- Iam de nibus?
- Miguel no andava de nibus. amos de carro, sempre das melhores marcas. Mas no eram roubados - comentou Ruth, abaixando a voz. - Ele odiava os puxadores. Comprava
e por segurana logo os trocava. Mas como planejava sumir, depois de vender o ltimo no comprou mais nenhum, para no deixar pista.
- Para onde pretendia ir?
- Exterior. Miami, Mnaco, Veneza, sei l. Vivia falando nesses lugares, como se fossem estaes de uma estrada para o paraso.
- Sabia que o Miguel fala ingls?
- Por isso ele foi usado. Precisavam de gente que s vezes pudesse se entender com estrangeiros. Pode parar, motorista - ordenou Ruth. - Perto daquela igreja.
0 txi estacionou e Ruth pagou a corrida. Assim que desceram, Jlio perguntou:
- Aonde vamos?
- A.
- A onde? - Na igreja. - Voc veio to longe para rezar?
Ruth riu e passou a mo no rosto de Jlio, acariciand-o. - Esta igreja fica aberta dia e noite - disse ela. - Tem muita gente que vem aqui de madrugada. Conheo 
bem um dos irmos leigos.
- No imaginava que voc fosse religiosa. - No sou.
- No ? Ento o que vem fazer aqui quando devamos estar procurando Miguel?
Subiram alguns degraus e depararam com a porta aberta da igreja. Era um templo modesto por fora, de linhas tradicio
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nais, porm no interior notava-se certo requinte. A luz, difana, emanando dos crios, e o silncio redondo da nave criavam uma atmosfera de intimidade e conforto. 
Os males do mundo no penetravam ali.
Ruth sentou-se num dos bancos e Jlio acomodou-se a seu lado. Depois de acostumar a vista quela macia penumbra, ele notou que no estavam ss na igreja. Uma mulher 
jovem ajoe lhara-se diante do altar e mais trs pessoas, dois homens, sentavam-se separadamente nos bancos.
- Eu gosto daqui - disse o rapaz. - Mas no estamos perdendo tempo?
- Voc  catlico?
- H catlicos e protestantes na minha famlia. Uma velhinha saiu do confessionrio.
- Que pecado cometeu aquela senhora? - murmurou Ruth. - No que teria se excedido ou se omitido?
- Voc j se confessou alguma vez? - perguntou Jlio. - J, mas no para um padre, foi para uma diretora do orfanato. Confessei que tinha roubado uma torta da despensa. 
Mas antes tive de apanhar. No fui perdoada pois me deixaram um ms sem doces. Miguel dizia que o melhor  sempre negar tudo. Mesmo sob tortura.
- Voc sempre lembra do orfanato?
- S quando estou acordada - respondeu Ruth, tentando sorrir.
Jlio comeou a ficar impaciente.
- 0 que estamos fazendo aqui, se no veio rezar? - Fique quietinho. No dou ponto sem n.
- 0 que quer dizer isso?
- Acha que eu viria a uma igreja sem motivo? Motivo prtico, digo.
- Voc freqenta essa igreja? - Vim duas vezes com Miguel.
- Com Miguel? Ele tinha algum problema de conscincia? - Garanto que nenhum - assegurou Ruth. - Seu nico problema era ganhar muita grana.
- Ganhar dinheiro numa igreja?
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Foram andando ansiosos  procura de um osis. Acabaram encontrando um naquela praa triangular, a mesma que atravessaram quando a caminho da penso. Era uma leiteria 
de subrbio, muito limpa, fresca desde a entrada, com apenas trs mesas para a freguesia. Largaram-se nas cadeiras e pediram refrigerantes. Saciada a sede, veio 
a vontade de comer sanduches. Ruth contou que se alimentara muito tempo exclusivamente com sanduches. Raros foram, durante anos, seus almoos completos. Mesmo 
quando j trabalhava no ganhava o suficiente para alimentar-se bem.
- Foi Miguel que me ensinou o que era bom em matria de comida. Com ele aprendi a consultar o cardpio e pedir pratos com nomes estrangeiros. Custava uma nota preta, 
porm ele no ligava. Costumava dizer que tudo que se pode comprar com dinheiro  barato. Mais vale um dia como milionrio do que cem na pobreza, era seu lema.
- Ele falava de mim? - perguntou Jlio, curioso.
- Falava. Tinha medo de que vindo para c voc descobrisse de que forma ele ganhava dinheiro.
- Eu ia custar a descobrir se no acontecesse tudo isso. - E seus pais, o que pensam de Miguel?
- Para eles Miguel  o mximo. O mais bonzinho da famlia. - A cidade muda as pessoas.
- A mim no vai mudar.
- Voc chegou ontem, garoto.
- J disse para no me chamar de garoto - protestou Jlio. - Voc no  nenhuma velha.
Ela sorriu como se pedisse perdo. - Tenho dezenove - revelou.
- E eu j fiz dezoito.
- Deixou alguma namorada em Serra Branca? - ela perguntou; subitamente interessada.
- No.
- Nem arranjou uma aqui? - Tambm no.
- Por que no arranjou?
- Porque tenho me ocupado do emprego e de procurar um colgio. Vou continuar os estudos.
- Quando quiser arranjar uma namorada no vai ser difcil para voc.
- Acha que no?
- Voc  ainda mais bonito do que o Miguel.
Aquilo parecia um elogio mas Jlio tinha uma pergunta a fazer. - Onde iremos procurar Miguel agora?
- Estou pondo o pensamento em ordem. Deixe eu acabar este sanduche, depois a gente parte para a luta. Quinhentos mil dlares que pertencem a Miguel esto comigo. 
E ele no  de dei xar dinheiro para trs. Enquanto no puser a bolada no bolso no sair de So Paulo, mesmo caado pela gangue.
Terminado o lanche, Ruth pediu a conta e fez questo de pagar. Acabara o recreio, estava novamente concentrada. Na rua, Jlio ps-se a andar a seu lado, sem a mnima 
idia de para onde estava sendo levado. Acreditava ainda que em certo momento o despertador tocaria, pondo fim ao pesadelo.
Mas sonhos bons ou maus no exalavam perfume e ele sentia perfeitamente o que Ruth estava usando. Como tambm via com a nitidez da realidade a sacola na mo dela 
com a estampa do marinheiro Popeye.
- J pensou se fssemos assaltados? - perguntou.
- Penso nisso o tempo todo, mas estou com os olhos bem abertos. Esqueceu que sou uma ex-menina de rua? Conheo um ladro de longe.
Atravessaram mais uma vez a praa triangular e chegaram a uma avenida onde era intenso o movimento de veculos e pessoas. Parecia ser a principal do bairro e a via 
de comunicao com o centro da cidade. Numa esquina, um homem vestido de preto, segurando um livro volumoso, falava exaltado a um grupo que o cercava, dando uma 
nfase especial s palavras pecado, Deus, Satans e morte.
- A cidade anda cheia de pregadores como este - comentou Ruth. Quando eu morava na rua me levaram certa noite para um abrigo e me deram sopa. Gente boa. Miguel ria 
deles.
- Por que sempre se refere a Miguel no passado, como se ele no existisse mais? - Jlio protestou, pensando que apesar de tudo Miguel era seu irmo. - Acha difcil 
ele escapar com vida? - Um txi! - exclamou a moa, j correndo.
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Os policiais procuravam deter o pensionista que se escondera no forro.
- Desa ou leva bala! - ouviu-se do quintal. - Saia, vamos metralhar.
A ameaa surtiu efeito. - Algemem o cara.
Depois, resmungos do viciado que se entregava, e risos dos policiais.
- J pegamos todos? - perguntou o que devia estar comandando a caada.
- Todos.
- D uma espiada no quintal. - J dei. Est limpo.
Mesmo assim abriram a porta. Um policial, no o primeiro, foi at o sanitrio e espiou. Outro, do corredor, disse-lhe:
- Vai um sarapatel? Tem de sobra l dentro. 0 policial voltou para o casaro sorrindo.
- E vatap, tem?
Jlio e Ruth levantaram-se, mas no totalmente aliviados. - Ser que vo logo embora? - perguntou o rapaz.
- Primeiro vo comer.
- No entendo como aquele no viu a gente - estranhou Jlio. - Ser que  meio cego?
- A luz do corredor atrapalhou - sups a moa. - 0 certo  que no podemos sair do quintal por enquanto. Permaneceram em silncio, perto da porta, na expectativa 
de ouvir os policiais sarem. Foi uma longa espera. Depois de algum tempo, soou um comentrio:
- Isso que  cozinheira, de acordo? - D at pena fechar essa penso. Risos.
Aps um bater de porta Jlio e Ruth retornaram ao casaro. - Veja - disse Ruth, apontando com o dedo. - Esta toalha de rosto est cobrindo o interruptor. Se tivessem 
ligado a luz a esta hora estaramos no camburo.
- D pra pensar em milagre! - exclamou Jlio acendendo e apagando a lmpada do quintal.
Seguiram pelo corredor interno, atravessaram a sala de jantar e j iam saindo quando a moa disse:
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- Espere. Aprendi a tomar todas as precaues com Miguel. - E deu uma espiada pelo olho mgico. - No podemos sair! - No?
- Olhe. Tem um guarda na porta. Jlio olhou.
- Tem um guarda sim. E agora? - Temos de sair pelo muro.
- Mas  alto.
- Precisamos dar um jeito.
Ruth entrou no quarto onde estiveram aguardando por Miguel, mas sem acender nenhuma luz. J tinha um plano.
- Vamos levar a mesa e a cadeira para o quintal.
Jlio pegou a mesa e Ruth a cadeira. No quintal encostaram a mesa no muro e puseram a cadeira em cima.
- Ser que d para outra casa? - receou o rapaz.
- Deixe que eu vejo - disse Ruth subindo com sua sacola. - Espiou sobre o muro e sem palavra lanou agilmente as pernas sobre ele. Fez sinal para Jlio acompanh-la 
e foi escorregando para o outro lado. 0 rapaz a imitou em seguida.
Quando ambos j estavam com os ps no cho, ela disse: -  uma casa de cmodos. Aqui entra e sai qualquer um. Atravessaram uma espaosa rea onde havia um imenso 
tan que coletivo e uma srie de portas que deviam ser de quartos. Um cachorro vira-lata foi receb-los amistosamente e um negro velho, fumando cachimbo, os cumprimentou.
Pararam num porto escancarado. Olharam ao lado e viram diante da casa vizinha, a penso de tia Rita, no um mas dois homens. - E se Miguel chegar...
- Ele no vem mais - garantiu Ruth. - J passou das dez horas.
6 ~ DEPOIS DAS DEZ
Assim que deram alguns passos Jlio e Ruth sentiram que estavam mortos de sede. 0 calor da tenso secara tudo. No pensavam em nada alm de beber muitos copos de 
qualquer lquido. Que sede!
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- No - ela concordou. - Descobriram o golpe. No est com fome mesmo?
- No, este lugar me d nojo.
- Eu estou. Menina de rua come em qualquer lugar. Essa Rita  uma artista. Volto j. Relaxe.
Jlio recostou-se na cama mas no pde relaxar. Olhava a sacola de Ruth com o marinheiro Popeye. O contedo dela podia causar a morte de uma ou mais pessoas. Quinhentos 
mil dlares. Valeria a pena arriscar-se tanto por aquele dinheiro? Procurou lembrar-se de Miguel em Serra Branca. Sua paixo era o turismo. Sonhava adotar qualquer 
profisso que lhe permitisse conhecer o mundo. Por isso desde cedo tinha comeado a estudar ingls. Falar um idioma estrangeiro era sua maior ambio.
Subitamente Jlio ouviu passos apressados no corredor e a porta abriu-se. Ruth apareceu plida e assustadssima.
- A polcia! - exclamou. - Est entrando na penso. Me d a sacola.
- A polcia?
- Est dando uma batida. - O que a gente vai fazer? - Tentar escapar.
Saram do quarto. As portas do corredor se abriam ao mesmo tempo, delas saindo, apavorados, alguns homens e duas mulheres, uns correndo para a sala, outros para 
o fundo do corredor. Pare cia estar havendo um terremoto. Uma das mulheres chorava. Um homem gritou:
- Escondam as armas.
Jlio viu a mulher com o turbante  cabea, Rita, movimentando-se, eltrica, e dando ordens. Pedia que jogassem os txicos na bacia das privadas. Um dos pensionistas 
apanhou um baralho e espalhou as cartas sobre a mesa da sala.
- Vamos fingir que estamos jogando.
Ruth segurava fortemente as alas da sacola. Como explicar  polcia os quinhentos mil dlares?
Fortes pancadas na porta de entrada. Dentro, continuava a correria que Rita procurava controlar para dar uma aparncia normal  penso. Um revlver foi escondido 
dentro de um vaso. Algum fechou-se no banheiro. Um homem ainda jovem com sabo de barba no rosto corria pela casa. Mais pancadas na porta.
Jlio estava completamente inerme. Ficaria onde estava se sua mo no fosse fortemente puxada por Ruth, rumo ao fundo do corredor. Nesse instante ouviram vozes enrgicas 
e uma ordem: - Todo mundo encostado na parede!
A polcia j entrara na sala.
- Isto  uma penso! O que querem aqui? - protestava Rita. - Penso e j foi centro esprita, sempre vendendo maconha. A porta do fundo dava para um quintal estreito 
mergulhado na maior escurido. Ruth tocou com o p numa lata de lixo cuja tampa caiu, aumentando a tenso dos dois.
- Eles nos descobriro aqui - disse Jlio, no vendo sada. - Vamos tentar saltar o muro - decidiu a moa.
-  muito alto!
Do interior do casaro ouviam portas sendo abertas com violncia e vozes dos policiais em tom de ameaa, mandando sair os que tinham se escondido nos quartos. Com 
estrondo a do quintal foi escancarada.
Jlio e Ruth abaixaram-se, encostados ao muro. Respirao suspensa.
- Onde se acende isso? - perguntou irritado um policial. No encontrando o interruptor saiu para o quintal.
Jlio e Ruth podiam v-lo perfeitamente, iluminado pela luz do corredor. Era baixote e tinha um revlver na mo. Olhava para o alto do muro. Seus olhos, aos poucos, 
desceram para um sanitrio externo. Hesitou um instante e abriu a porta com um pontap. Olhou dentro com cautela, arma em posio de tiro. Outro policial apareceu 
 porta.
- Alfredo, tem um cara no forro.
O policial que estava no quintal entrou precipitadamente na casa.
Jlio e Ruth continuaram abaixados rente ao muro. Ao menos j podiam respirar. A calma durou pouco. Logo o disparo de um revlver, que pareceu o de um canho no 
eco noturno, for ou os dois a tremerem num abrao apertado. Um sentiu na pele o medo do outro. Pela primeira vez Jlio no viu Ruth como algum que acabara de conhecer 
e que apenas o conduzia. Estavam no mesmo barco. E apavorados. Mas como era agradvel seu contato.
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- Um homenzarro? Tenho medo s de olhar aquele cara. - Ele no tem vindo?
- No - disse Rita. - Se Miguel tiver negcios com aquele tipo, que tome cuidado. J acabou com a vida de muita gente. Assim que ficaram a ss, Jlio perguntou:
- Que lugar  esse?
- Chamam de penso.
- No tem cara de penso.
- Mas servem boa comida. A Rita cozinha bem. Quer comer? - Isto tem mais jeito de antro de viciados.
- E  tambm uma penso, para disfarar. J vim aqui com Miguel duas vezes. Ele adora o tempero da Rita.
- Miguel, um traficante! - exclamou Jlio. - Nunca imaginaria isso.
- O importante agora  sairmos vivos dessa confuso.
- E voc, como entrou nessa? - quis saber Jlio, cada vez mais atrado pela moa.
- Sou apenas a namorada de um traficante. Mexo com cenrios de peas teatrais - contou ela com certo orgulho. -  minha vocao. No orfanato eu j desenhava. Montvamos 
espetculos. Uma vez apareceu um reprter por l, viu meu trabalho, gostou e disse que eu iria longe. Nem queira saber como isso me subiu  cabea. Logo depois fugi 
do orfanato com uma pasta de desenhos. Mas no encontrei mais o tal cara. Tive de ficar na rua.
- Voc foi uma menina de rua?
- Fui, dormi muito em bancos de jardins, portas de igreja e debaixo de viadutos.  noite  que se sabe como esta cidade  fria e perigosa. Mais de uma vez quase 
fui estuprada. Sempre com minha pasta de desenhos. Meu primeiro emprego foi como bilheteira de um teatro. Bilheteira e faxineira durante o dia. Me deixavam dormir 
num camarim. Eu gostava do silncio do teatro vazio. A conheci um velho cengrafo argentino e mostrei a ele meus desenhos do orfanato. O coroa achou que eu tinha 
jeito e me fez sua assistente. Com ele aprendi alguns macetes da profisso.  como desenhar casas para bonecas.
- E depois?
- Depois apareceu Miguel.
- Ele logo lhe disse o que fazia?
- No e nem desconfiei. Ele me impressionou muito. Uma menina de rua saindo com um cara cheio da grana e com um tremendo carro! Para mim ele era um prncipe encantado. 
Conhece a histria da Gata Borralheira, no? Eu gostava dos restaurantes que ele me levava. Um mais chique que o outro. Me deu roupas, eu que s tinha uma blusa. 
Veja esse anel - mostrou. -  de brilhante. Presente dele.
- E como voc soube de tudo?
- Ele confiou em mim. E precisou de mim algumas vezes. - E essa tal de agncia de turismo?
-  uma falsa agncia para lavagem de dlares. Faltava a pergunta mais importante:
- Por que ele roubou os traficantes?
-  uma outra histria. Quer ouvir? - E Ruth comeou a contar a conversa que tivera com Miguel uma noite, quando saam de um show de rock.
- Acho que vou deixar a profisso - disse Miguel rindo. - Resolveu criar juzo - admirou-se Ruth. - Parabns. - No  bem isso. Tenho um plano. Os caras vo receber 
meio milho do trfico. Estou pensando em passar a mo nesse dinheiro e dar o sumio.
Ruth levou o maior susto.
- Eles iro procurar voc at no inferno. Corte essa.
- No  mole - Miguel admitiu - mas estou no ramo o tempo suficiente para saber que no trfico ningum tem vida longa. Ou a polcia mata ou se matam entre si. Muitos 
apodrecem na cadeia e outros desaparecem para sempre. Mas j teve gente que roubou quadrilhas e ficou numa boa porque as quadrilhas foram desbaratadas. Est entendendo? 
Pretendo fazer o mesmo. Pegar uma bolada e evaporar. E s volto quando todos estiverem mortos ou presos.  menos perigoso do que se arriscar por pouco dinheiro. 
Do jeito que estou mais cedo ou mais tarde os tiras me pegam enquanto os outros continuam livres.
- E eu? No pensou em mim?
- Voc pode ir comigo. Tudo vai dar certo. No se preocupe.
Jlio ouviu a histria, depois comentou, pensativo:
- Parece que as coisas no saram como ele planejou.
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momento, para ele j ansiosamente aguardado, em que as duas se encontrariam. Mas, por enquanto, no podia identificar a garota abandonada de um orfanato na moa 
decidida que seguia a seu lado. E onde, em que encruzilhada, em quais circunstncias, seu destino emparelhara com o de Miguel? O que os aproximara? Tinha muito a 
descobrir naquela noite.
- Ningum sabia que o dinheiro estava guardado na rodoviria? - perguntou, enquanto caminhava com Ruth pela calada, coalhada de gente que ia e vinha, carregando 
malas.
- Apenas Miguel e eu... suponho. - Para onde estamos indo?
Ruth no respondeu, olhando inquieta para todos os lados. Em seguida, atravessou ligeira a rua e fez um txi parar enquanto com um sinal pedia a Jlio que se apressasse.
- Tive a impresso de que estvamos sendo seguidos - disse ao entrarem no carro.
- Pelo grandalho de culos escuros?
- No, por uma mulher de cabelos vermelhos, ruiva. - Voc a conhece?
- Eu vi essa mulher uma vez - respondeu Ruth. -  da quadrilha.
- Como sabe?
- Miguel me apresentou a ela num clube.  estrangeira.
- Se estava pelas imediaes da rodoviria talvez soubesse onde Miguel guardava o dinheiro - calculou Jlio.
- Pode ser que a gangue esteja bloqueando algumas sadas da cidade - disse-lhe a moa ao ouvido.
- Quem quer fugir foge mesmo a p - argumentou ele. - Mas devem saber que Miguel ainda est na cidade e que no fugiria deixando ns dois expostos ao perigo. Por 
isso, se no pegarem Miguel, podem tentar nos reter como refns. - E erguendo a voz ao motorista: - Pare aqui.
O txi parou diante de um escuro terreno baldio entre casas trreas. Jlio entendeu que se tratava de uma precauo para evitar que vissem os dois descer do carro. 
Com Ruth  frente, em silncio, atravessaram a passos rpidos o terreno, que terminava na rua paralela. Mas no era ainda ali o lugar do encontro. Havia logo alm 
uma escadaria rstica, de pedras, dividida em dois lan
ces, comunicando com a parte baixa do bairro. Uma mulher gorda subia os degraus lentamente equilibrando uma enorme trouxa de roupa  cabea. Passaram por ela e chegaram 
a uma pequena praa na inusitada forma de um tringulo.
- Estamos chegando - avisou Ruth.
Pararam diante de um casaro desbotado, cuja cor original seria impossvel identificar. Sua fachada e parte lateral, toda recortada de janelas fechadas, davam um 
aspecto sombrio  constru o, a qual se entrava por um porto de ferro, com barras retorcidas ou soltas, em franca decrepitude.
Ruth foi entrando por um corredor aberto de cimento esburacado, seguida por Jlio, que mostrava no se sentir nada bem. O fato de no saber o que sucederia agravava 
seu febril estado de esprito. A moa bateu trs vezes seguidas, ritmicamente, com o punho, na porta do fundo do corredor, como se fosse um sinal combinado. Ouviram 
logo passos leves, mas demoraram a atender, com certeza para antes observar pelo visor.
Quando a porta abriu, sentiu-se um bafo de ervas amargas, algo sufocante, e viram uma mulher baixa e carnuda que usava um turbante na cabea.
- Quem  esse a? - perguntou a Ruth, com desconfiana. -  um amigo do Miguel, Rita. Viemos esperar por ele. - Miguel no tem vindo aqui. Estamos abastecidos.
- Mas ele vem, Rita. H algum lugar onde a gente possa esperar?
Conduzidos pela dona da casa, passaram por uma vasta sala de jantar, mal iluminada, com paredes nuas e manchadas, onde muitas cadeiras volteavam uma mesa comprida. 
Sobre um assoa lho de tbuas inteirias, rangentes, ela levou-os a um quarto acanhado, um entre muitos de um corredor extenso. A moblia, alm de velha, era supermodesta: 
duas camas, cadeira e uma mesa pequena. Persistia a o cheiro acre da sala.
- O que vo querer? - perguntou Rita. - Erva ou p? - Nada - respondeu Ruth. - A gente s vai esperar. Rita no gostou. Aquilo no era lugar de encontros.
- Estamos fazendo comida. Posso preparar dois pratos? - Logo vou  cozinha - disse Ruth. - Ah, conhece um tal de Geovani?
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- 0 que tem ai? - perguntou Jlio. - Voc vai se assustar, garoto - avisou Ruth.
- Dinheiro de trfico?
- Dinheiro roubado de traficantes. - Miguel roubou?
- Roubou.
Jlio ficou atordoado. Mas precisava saber tudo. - E voc vai levar esse dinheiro para ele?
- Vou tentar.
- Por que tentar?
- Porque no sei direito onde ele est. - Ele no disse ao telefone?
- No. Algum devia estar muito perto ou escutando por uma extenso.
- Ento como iremos encontr-lo?
- Por adivinhao. Conheo alguns lugares que Miguel freqenta ou onde poder deixar recado.
Jlio queria saber mais:
- 0 que acontecer depois que o encontrarmos?
- Eu entregarei a ele o dinheiro e voc a caderneta. A ele poder desaparecer.
- E eu?
- Voc volta correndo para Serra Branca. No reaparea nos prximos dez anos.
Outra pergunta:
- E voc, o que voc far j que os bandidos sabem onde mora?
Ruth no respondeu logo.
- Se Miguel no for contra desaparecerei com ele. - E acrescentou sem olh-lo, envergonhada, como se fosse uma confisso pecaminosa, um segredo: - No tenho parente 
algum. Passei a infncia e a adolescncia num orfanato.
- Num orfanato?
- No lamente. Espero ter ainda alguma chance. Acho que conhecerei meu futuro antes que amanhea.
5 e DEZ PARA AS NOVE
Jlio sentiu que palmilhava duas histrias, a atual, a do cho que pisava, e a histria passada de Ruth. Haveria um
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- Miguel se apoderou dum monto de dinheiro deles. Tm medo de que fuja com o dinheiro e principalmente com a caderneta, onde esto anotadas todas as ramificaes 
do grupo, entendeu? Miguel era uma espcie de cobrador da turma.
Chegaram  rua e seguiram para a esquina prxima quase em ritmo de fuga. Antes de dobr-la, Ruth olhou para trs e Jlio fez o mesmo. Viram um carro de luxo parar 
diante do prdio amarelo e dele descer um homem.
-  esse! - exclamou Jlio. -  ele! - Ele quem?
- 0 homem alto, de culos escuros, que vi entrar onde moro. Ruth olhou de relance.
- Moo de sorte, voc. Escapou do Geovani duas vezes no mesmo dia.
- Quem  Geovani?
- Um dos maiores criminosos deste pas. Com essa sorte voc devia arriscar na loto.
4 e OITO EM PONTO
A rodoviria estava lotada, num contnuo entra-e-sai desordenado.
No era possvel andar dois passos sem esbarrar em malas e ouvir protestos. Desta vez Ruth tinha preferido um txi. Durante o trajeto no proferira uma nica palavra. 
Parecia que conversa atrapalhava no lugar de esclarecer, retardava a ao.
Na rodoviria subiram uma escada rolante, carregada de pessoas imveis como manequins. Depois percorreram um corredor de guichs iluminados de empresas transportadoras.
- Acho que me enganei - disse ela. -  l embaixo. Que cabea!
- 0 que  l embaixo?
Na outra extremidade do corredor havia a escada rolante que descia. Passaram a circular no trreo, ela apressada, trombando pessoas. Por fim pararam diante de um 
letreiro:
BAGAGENS
-  aqui. - Ruth abriu a bolsa e retirou uma chave. Impaciente, pela primeira vez ela ps todo seu nervosismo  mostra. Mordia o lbio e esfregava as mos.
- Venha comigo - disse a Jlio. - Voc guardou alguma mala a? - Miguel guardou.
- Que mala?
- Quer calar a boca, por favor? - ela explodiu, descontrolada. Entraram numa sala ocupada de alta a baixo por malotes numerados. Era onde passageiros em trnsito 
guardavam suas bagagens. Ruth procurou um tanto aflita um nmero e parou diante do malote 121. Olhou-o como se fosse a entrada da caverna de Ali-Bab. Fez uma pausa 
que parecia conter espao para uma reza. Depois, com as mos trmulas, girou a chave. Olhou dentro ansiosa, como se o corao fosse explodir, como... mas soltou 
em seguida a respirao, aliviada, e dizendo sem som um graas a Deus, retirou uma sacola verde, bastante gorda. Bonitinha, trazia estampado em ambos os lados, em 
relevo, o simptico comedor de espinafre, marinheiro Popeye.
- 0 que tem a? - perguntou Jlio. - Roupas de criana? - Roupas de criana... - repetiu Ruth com desdm. - Voc vai se assustar, garoto.
- 0 que ? Uma cascavel?
Ela olhou ao redor e disse s para ele e Deus: - So verdinhas.
- 0 qu?
- Quinhentos mil dlares. - Quinhentos mil?!
Como uma professora, ela explicou:
- Transformando os dlares em cruzeiros uma pessoa que no esbanje muito pode viver de renda at bater com as dez. Mas se preferir pode comprar vinte e cinco carros 
de boa qualidade. Ou um belssimo apartamento nos Jardins.
- De quem  esse dinheiro? - ele perguntou j imaginando a resposta.
- De seu querido irmo. - De Miguel?
Um sorriso enviesado:
- Ou seu, se o matarem. Quinhentos mil dlares.
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- Miguel vem sempre aqui?
- 0 martni vai lhe fazer bem. Descontrai. Senta. Jlio preferiu o pufe.
- Bem, fale da caderneta. - Pertence a Miguel.
- Isso j sei - disse Jlio, voltando a perder a calma. - O que quer saber mais?
- Quem so as pessoas que procuram por ela?
- As piores do mundo. Contrabandeiam, seqestram, matam - ela revelou afinal.
- Por que querem a caderneta?
- Porque contm informaes perigosas para elas. - Ah! Como Miguel conseguiu essas informaes? Ruth terminou seu martni.
- Quer mais um? - No.
- Eu vou querer. No sou de ferro - disse ela levantandose, de volta  cozinha.
Jlio no teve pacincia de esperar pela resposta. Acompanhou-a at a cozinha, minscula demais. Mal cabiam os dois. - Eu tinha feito uma pergunta - lembrou.
- Ouvi. No sou surda. Voc quer saber como Miguel conseguiu as informaes da caderneta. Pois ele que lhe diga - concluiu Ruth, irritada.
- Ento ele vem para c? - J devia ter chegado.
Ruth pegou o martni e retornou ao living. Sua primeira preocupao foi fechar s pressas a cortina que Jlio deixara um palmo aberta. Depois acendeu a luz de um 
abajur e apagou a geral. Que
ria mostrar-se segura mas estava apavorada. 0 rapaz notava isso. - Voc est preocupada?
- Se Miguel demorar mais um pouco teremos de sair - avisou ela.
- Para onde? - Rodoviria. - Fazer o que l?
Tocou o telefone. Ruth atendeu precipitada, depois de chutar um pufe. Falava baixo, em tom cavernoso.
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- Sim, ele est. Voc no vem?
-  Miguel? - quis saber Jlio, aproximando-se.
- Ento o que devemos fazer? - ela perguntou ao telefone, ignorando o rapaz. A resposta que ouviu deveria ter sido monossilbica. - Certo - concordou, e j num clima 
de afobao desligou o aparelho.
- Queria falar com ele.
- Miguel estava sem tempo para bate-papo. Cortou a ligao. Vamos depressa.
- Para onde?
-  rodoviria, j disse. - Mas a garota no saiu logo, antes foi espiar, cautelosa,  janela, empurrando ligeiramente a cortina. Tornou a fech-la. - Agora podemos 
ir.
- De onde Miguel telefonou?
- No deu para dizer. Havia gente nos calcanhares dele. E talvez os caras apaream por aqui.
- Aqui?
- Podem estar a caminho.
- Por que no entregamos a caderneta  polcia para acabar com isso?
- Ora, por qu...
- Quero saber - insistiu Jlio, firme, crescendo para tomar o comando. - No pretendo morrer por causa dessa caderneta. E j estou cheio dessa histria. Acho que 
voc  meio biruta, de tanto assistir filmecos na TV.
- Ah, quer saber? - perguntou Ruth em tom de desafio, cara a cara.
- Claro.
- Porque seu irmo est metido nisso at o pescoo - ela disse numa s emisso de voz. - Se a caderneta cair nas mos da polcia ele tambm se complicar. Entendeu 
agora?
Jlio respirou fundo.
- Quer dizer que Miguel  da quadrilha,  isso?
Ela virou o martni que restava no clice. No era fcil revelar. - Era. Vamos agora.
Jlio seguiu Ruth ainda no entendendo nada. Enquanto desciam as escadas, perguntou:
- Voc disse era, ento ele rompeu com a quadrilha?
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- Voc  namorada de Miguel? Ela riu.
- O que voc acha?
- Acho que voc  namorada dele. E apaixonada. - Voc  irmo dele, deve saber melhor do que eu.
- Faz cinco anos que Miguel vive em So Paulo - disse Jlio. - Durante esse tempo o vi poucas vezes. No sei quase nada da vida dele.
- Isso  normal. Eu tambm sei pouco da vida de minha irm. Ela  freira.
A caderneta pareceu crescer e interno do palet de Jlio.
- Fale da agenda.
- Vamos descer na prxima estao. Levante-se.
O trem parou. Jlio e Ruth desembarcaram, ela andando  frente e lanando olhares cautelosos para os lados. Subiram a escadaria j vendo a noite l fora. O rapaz 
esperava encontrar o irmo
 entrada do metr, quando saberia de tudo o que acontecia. Mas no o viu.
- Para onde estamos indo? - perguntou, seguindo a moa. - Vamos pegar um nibus.
- Tenho dinheiro para txi.
- Eu tambm. Entre naquele nibus. Mas no vamos sentar juntos desta vez.
- Puxa, pra que essa correria? - protestou Jlio. -  em nosso benefcio, garoto.
- No me chame de garoto. Voc no deve ser mais velha do que eu.
Sem saber qual era o trajeto do nibus, Jlio entrou e sentou-se ao lado de uma mulher grvida, vestida pobremente. Ruth conseguiu lugar logo  frente dele, perto 
de um homem idoso que lia interessado um livro de bolso. De quando em quando Jlio apertava com o brao o volume que a caderneta fazia. Estaria transportando uma 
bomba no palet?
Decidiu retir-la do bolso para solucionar o enigma.
Ruth devia ter algum poder extra-sensorial. Voltou o rosto para trs no mesmo instante. Parecia uma me repreendendo o filho: - Guarde isso.
comeou a pesar no bolso
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Foi to severa que Jlio obedeceu. No se zangou, porm. Fora a primeira vez que pudera observar Ruth de frente, rosto a rosto. At ento conhecera apenas seu perfil. 
Ela era realmente muito bonita mesmo. Cara de sorte, seu irmo! Estranho nunca lhe dizer que tinha uma namorada. Se o assunto eram garotas, desconversava. Alis, 
pouco se falavam. Quando Jlio ia para o trabalho, Miguel estava dormindo.  noite raramente se encontravam. Ele, se tivesse uma namorada como Ruth, contaria para 
o mundo inteiro.
A moa levantou-se e Jlio fez o mesmo. Desceram no ponto como se no se conhecessem. Na rua ela atrasou o passo, para que ele a alcanasse e perguntou:
- Que horas so? Ele olhou o pulso. - Meu relgio parou.
3 e MAIS OU MENOS SETE E MEIA
Ruth entrou num prdio amarelo, de trs andares, sem porteiro nem elevador. Construo baixa mas slida, antiga, tpica dos anos 50, porm bem asseada e agradvel. 
Ela  frente, subi
ram um lance de escada. Ruth abriu a porta de um apartamento e entraram. A luz revelou um living espaoso, cheio de plantas; decorado confusamente com uma srie 
de psteres. Jlio viu tambm um sof baixo, poltronas, pufes e uma estante com alguns livros velhos.
- O que voc quer beber? Miguel gosta de martni seco. - No entendo muito de bebidas, aceito qualquer coisa. Ruth foi para a cozinha e Jlio aproximou-se da janela, 
extensa, quase com a largura e a altura do living. Empurrou a cortina e viu a rua, iluminada por lmpadas de mercrio, tranqila e arborizada. Sentiu-se bem naquele 
lugar, apesar de tudo. Imaginou ter uma namorada que morasse ali, mas certamente sem aquele tipo de problemas.
- Est bem gelado - disse a moa aparecendo na sala com bandeja e dois clices grandes.
Ela finge estar calma mas continua nervosa, considerou Jlio pegando o clice. Tomou um gole.
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ima elegncia discreta, e levava uma destoante bolsa a tira`. Era bonita, loura, de corpo bem modelado, e chamava a ateno, como ele pde observar.
O movimento no metr o deixou desnorteado. Os passageiros passavam apressadamente pelas catracas, empurrando-se nas filas. Um homem idoso perdeu o equilbrio e caiu. 
Jlio fez meno de levant-lo. Ruth o deteve pelo brao.
- Precisamos pensar em ns agora. Nada de perder tempo. Jlio irritou-se:
- Afinal o que est acontecendo? Para mim tentativa de roubo, mais nada.
- Vamos pegar o metr. - Para ir aonde?
- No quer ver seu irmo? - Sabe onde ele est?
- Sei. Acho que sei.
Ruth dirigiu-se ao guich e comprou dois tquetes. Apesar da situao inusitada Jlio examinava a estao com olhos de interiorano, admirado. A moa continuava alerta, 
olhando disfara damente a todos que deles se aproximavam. Passaram pela catraca rumo  plataforma.
- Algum telefonou para o apartamento? - perguntou Ruth enquanto esperavam o trem.
- Telefonou, mas como eu no disse o nmero, a pessoa tambm no falou nada. S ouvi uma respirao forte.
- E voc saiu em seguida? - Quase correndo.
- Fez bem.
- Fiz? Por qu?
- L vem o trem. Vamos.
Entraram num vago e sentaram-se. Jlio achou que j era hora de a moa dar explicaes.
- Como me reconheceu? - tornou a perguntar.
- Miguel me mostrou um retrato seu. Mas nem seria preciso. Adivinhei que era voc.
- Tem idia de quem revirou o apartamento?
- No precisamente - ela respondeu de uma forma vaga. Parecia no querer revelar de uma s vez tudo que sabia.
s houve uma
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- Ladres comuns teriam levado o televisor e o aparelho de som.
- Isso  verdade. No eram ladres comuns.
- Ento procuravam alguma coisa - concluiu Jlio. - Procuraram, mas no encontraram.
- Como sabe que no encontraram?
Ela no respondeu logo, mas disse enfim: - Porque essa coisa est com voc.
- O qu?
- Porque essa coisa est com voc - ela repetiu. No dava para entender.
- Comigo? - Est.
- Do que est falando?
Depois Jlio lembrou: Miguel dera-lhe um caderninho de endereos para guardar, protegido por um elstico. Dissera para sempre lev-lo, quando sasse, sempre. Deix-lo 
no apartamento seria imprudente: no confiava na mulher que fazia a limpeza. Por que no guardava ele mesmo? perguntara Jlio. Porque j perdera mais de uma vez 
agendas e documentos. Era um cucafresca. Guarde s por uns dias, Jlio, pedira Miguel.
Apalpou o palet.
- Se fala da caderneta...
- No tire do bolso - advertiu a moa. - Quer ficar com ela?
- Est mais segura com voc.
- Mas o que h nessa porcaria de agenda? - O que h em todas: nomes e endereos. Mistrio irritante. Jlio perguntou, alto:
- Era ento esse caderninho que procuravam? Por qu? - Fale baixo, por favor.
- Era?
- No estou autorizada a contar tudo. Por enquanto basta saber que estou salvando sua vida.
- Salvando minha vida! - exclamou Jlio. -  gozao? - No se assuste. Tudo pode acabar bem - disse a moa mudando de tom. Parecia meio tonta.
Houve uma pausa maior em que o rapaz encaixou uma pergunta de outro naipe:
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- Sim. Quer falar com Miguel?
- Com voc mesmo. Sei que ele no est. - Sabe?
- Voc est bem? - a dona da voz perguntou. - Estou aflito. Aconteceu uma coisa aqui.
- Aconteceu o qu? Diga depressa. Estou num orelho - foi dizendo a voz, nervosamente.
- Algum revirou o apartamento todo. Uma breve pausa e uma pergunta ansiosa: - Voc no avisou a polcia, avisou?
- Ainda no.
- No avise - implorou ela. - O que deve fazer  sair da agora mesmo.
- Sair? No posso, preciso esperar por Miguel. - Ele no vai voltar.
- No? Quem lhe disse? - Eu sei.
- Mas no tenho para onde ir.
- Podemos nos encontrar. Esteja o mais cedo possvel na estao do metr da Repblica. Sabe onde , no?
- Espere. Como vou reconhecer voc? Desligaram.
Jlio ficou zonzo. Por que ela dissera: o que deve fazer  sair da agora mesmo? Ladres nunca retornam aps uma tentativa malograda. E por que Miguel no voltaria 
ao apartamento? Tambm no entendia como a moa marcara o encontro com um desconhecido sem fornecer ou indagar sobre dados pessoais. Somente indo ao metr obteria 
respostas a tais perguntas.
J se dispunha a sair quando o telefone tocou outra vez. Atendeu, porm alertado por uma sbita intuio, no disse o nmero nem al. Do outro lado no ouviu voz 
alguma, apenas uma respirao forte e entrecortada. Pareceu-lhe que telefonavam apenas para constatar se algum retornara ao apartamento. Como no obtivessem resposta, 
cortaram a ligao. A partir desse momento Jlio comeou a ter medo, lembrando a quase ordem da moa para que sasse imediatamente.
Fechou a porta do apartamento e correu na escurido. Tateando. a porta do elevador apertou seguidamente o boto de cha
mada. Teve a impresso de que jamais o elevador demorara tanto. Quando, afinal, parou no 11 , Jlio entrou  toda, atropelando uma mulher, vestida de preto, que 
segurava possessivamente um crucifixo. Pediu desculpas e cravou os olhos nos nmeros que se iluminavam  medida que o elevador descia.
Jlio apenas se acalmou ao chegar  rua. Enquanto, na calada, esperava a passagem de um txi, viu um homem enorme, um imenso gorila, usando culos escuros, de aspecto 
suspeito, entrando no edifcio. Assustado como estava, a imaginao  solta, sups que fosse aquela a pessoa de respirao ofegante que telefonara. Parou um txi 
e pediu ao motorista que o levasse  Repblica. Tentou controlar os nervos, aceitar os fatos. No conseguiu. Nunca sofrera tal seqncia eltrica de emoes. Por 
que Miguel no voltaria ao apartamento? Estaria fugindo de algum?
Ao chegar  praa, bastante movimentada quela hora, colocou-se em posio bem visvel, defronte  estao. Muitas mulheres sozinhas ou acompanhadas passavam por 
ele sem olh-lo. Espe rou cerca de dez minutos e nada. O que deveria fazer se a moa do telefonema no aparecesse? Zanzar pelas ruas, sem destino? Enfrentar o perigo 
voltando ao apartamento? Ou procurar a polcia apesar de desaconselhado?
Leve, algum por trs lhe tocou o ombro. - Me chamo Ruth - disse uma jovem.
2 e QUASE SETE HORAS
Jlio virou a cabea e a garota veio para o seu lado. - Como me reconheceu? - ele perguntou.
- Tem certeza de que no foi seguido? - ela quis saber num sussurro. Sua voz era mesmo rouca, rouquinha. Parecia ter cantado a tarde inteira num show de rock.
- Por que me seguiriam? - Vamos entrar no metr.
Jlio nunca entrara numa estao do metr. Ia e voltava ao trabalho de nibus. Foi descendo as escadas ao lado de Ruth. Ela, provavelmente namorada de Miguel, no 
vestia jeans como
a maioria das moas de sua idade. Usava um vestido verde, intei
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Girou a chave e abriu a porta do apartamento. O que era aquilo?
O que havia acontecido?
Parou  porta, as pernas bambas. Entrava ou recuava? Tudo revirado e espalhado pelo cho: gavetas e seu contedo, peas de roupa, livros, almofadas, o div tombado 
e um abajur pisoteado, aos pedaos. O televisor fora jogado no assoalho. Entrou e abriu a porta do quarto. Mais desordem. A roupa das camas formava uma trouxa no 
canto. Os colches fora de lugar. Os dois criados-mudos sem as gavetas. As cortinas arrancadas. Na cozinha, ao lado, a geladeira aberta e suas prateleiras soltas. 
At o compartimento das verduras fora vasculhado. Por fim dirigiu-se ao banheiro onde o armrio embutido, com sua porta escancarada, mostrava que algum o revirara.
Jlio voltou  sala e atordoado, suando, largou-se na nica poltrona deixada de p.
Ladres... Mas que ladres eram aqueles que pelo menos aparentemente no haviam levado nada? J ouvira falar de roubo de televisores no edifcio. O de Miguel, porm, 
estava l, bem como o aparelho de som. Por que no roubaram as boas roupas do mano? Estariam apenas interessados em jias e dlares num edifcio cujos inquilinos 
provavelmente nunca tinham visto a cor de moeda estrangeira? No entanto o rebulio indicava que estiveram no apartamento  procura de alguma coisa. Mas o qu?
Pensou em comunicar-se com o irmo. Mas nem sabia onde Miguel trabalhava. Ele mencionara uma agncia de turismo e s. Na verdade ignorava at o que o irmo fazia 
na tal agncia. Teria de continuar a sua espera. Porm o mano voltava invariavelmente tarde, s vezes apenas no dia seguinte. Deveria, para ganhar tempo, ligar  
polcia?
O trim-trim do telefone.
Jlio assustou-se. O telefone nunca tocava naquele apartamento. No tinha ainda amigos na cidade e era ele quem ligava  me, em Serra Branca, uma vez por semana. 
Quanto ao irmo, recebia raros chamados.
Uma voz feminina apressada e rouca. -  o Jlio?
Que mulher o conhecia na cidade?
10
0 que era aquilo? 0 que havia acontecido? - se perguntava Jlio diante do apartamento revirado.
1 e DEPOIS DAS SEIS
No edifcio fronteiro ao Mercado Velho, situado numa das zonas caticas da cidade, caberia toda a populao da minscula Serra Branca, onde Jlio morara at um ms
atrs. Ainda acostu mado  paz do interior, ao voltar do trabalho bastava avistar aquele imenso prdio cinzento e ele j se sentia deprimido.
Junto do confuso visual da regio, vinha agregado o mau cheiro quase centenrio do mercado, sobressaindo-se o de peixes, entranhado no ar e em tudo. As prprias
pessoas que residiam nas imediaes, ou que simplesmente por elas transitavam, davam a impresso de exalar um odor nefasto. A cidade, ali, apodrecia. Os inquilinos
que Jlio encontrava no hall de entrada, corredores ou elevadores, eram como que habitantes de um mundo estranho. Gente mal-encarada, machucada pelo trabalho rude
e revoltada pela falta de dinheiro. Mesmo as mulheres eram assim. Miguel, o irmo com quem Jlio vivia, era o nico morador de bom aspecto do edifcio. No entendia
por que um cara to bem vestido e propenso ao luxo residia ali. Alis os dois no se davam bem. Miguel, vinte e cinco anos de idade, sete a mais que Jlio, opusera-se
 ida do mano  capital, mesmo tendo o rapaz emprego garantido. Por correspondncia conseguira um numa firma de representaes.
Ao ver o caula chegar, Miguel fora logo dizendo:
- No espere que eu v ser sua bab, sou muito ocupado. Vire-se.
Jlio tratara pois de cuidar da prpria vida. Tinha comeado no trabalho e todos os dias chegava em casa pouco depois das seis. Nessa tarde, no foi diferente.
Depois de alguns minutos de fila Jlio entrou no elevador. A lotao sempre esgotava. Apenas dois carros serviam a uma populao de cerca de cem apartamentos. O
pior, contudo, vinha depois, ao ter de percorrer o corredor estreito e escuro do andar onde j houvera at assassinatos. Era como circular pelos pores de um castelo
medieval,  espera de que um vampiro, algum Drcula, de capa preta, viesse cravar os dentes em sua cartida. Uf!




9
14 m CU-C0, CU-C0, CU-C0, CU-C0, CU-C0: CINCO HORAS
15 z SEIS HORAS DA MATINA
16 e OUTRAS HORAS E OUTROS DIAS
u
120 121
DOZE HORAS DE TERROR
0
9;ell
        1 t DEPOIS DAS SEIS        9
        2 e QUASE SETE HORAS        13
        3 e MAIS OU MENOS SETE E MEIA        11
        4 e OITO EM PONTO        20
        5 e DEZ PARA AS NOVE        23
        6 e DEPOIS DAS DEZ        31
        1 e DEPOIS DAS 0 ZE        41
        8 1 QUASE MEIA-NOITE        41
        9 e DEPOIS DA MEIA-NOITE        56
        10 e A UMA HORA EM PONTO        63
        11 e DEPOIS DAS DUAS DA MADRUGADA        19
        12 e TRES HORAS DA MADRUGADA        85
        13 e QUATRO HORAS DA MADRUGADA        93
TEXTO
Editor Fernando Paixo
Assessora editorial Carmen Lucia Campos
Preparao de originais Lizete Machado Zan
Suplemento de trabalho Laiz Barbosa de C. Werner
ARTE
Editor Ary A. Normanha Ilustraes
CAPA E INTERNAS
Daniel Munhoz Diagramao e arte-final Fukuko Saito Antonio U. Domiencio Composio Edson Vander de Oliveira Paginao em vdeo Eliana Ap. Fernandes Santos
Impresso e acabamento
W. ROTH S.A. - (01l) 960-2988
ISBN 85 08 04444 5
1993
Todos os direitos reservados Editora tica S.A. Rua Baro de Iguape, 110 e CEP 01507-900 Tel.: PABX (011) 278-9322 e Caixa Postal 8656 End. Telegrfico "Bomhvro" 
e Fax: (011) 277-4146 So Paulo (SP)
UM LONGO PESADELO
H romances escritos para a juventude que podem ser lidos em qualquer idade. As aventuras de Tom Sawyer e As aventuras de Huck, do escritor norteamericano Mark Twain, 
e Kim, do ingls Rudyard Kipling, so exemplos disso. No gnero policial h a srie do detetive Sherlock Holmes, de outro ingls, Conan Doyle, que jovens, de idade 
ou de esprito, adoram com a mesma intensidade.
Marcos Rey, nos livros que escreveu para a Vaga-Lume, sempre pretendeu o mesmo: escrever para a juventude mas procurando interessar tambm os adultos.
E na verdade romances como 0 mistrio do cinco estrelas, Um cadver ouve rdio, Bem-vindos ao Rio e Enigma na televiso, entre outros, no so lidos apenas por leitores 
de idade escolar. J so procurados pelo pblico em gera-I.  o que explica a venda de mais de trs milhes de exemplares.
Este, Doze horas de terror, entre todos os que Marcos Rey publicou na VagaLume  talvez o que melhor tem condies de abranger uma faixa mais ampla de leitores.
Conta uma histria, verdadeiro pesadelo, cheio de sombras e armadilhas, vivida no espao limitado de doze horas, por um casal de jovens, Jlio e Ruth, que, sem se
conhecerem antes, so envolvidos numa seqncia pavorosa de acontecimentos.  o tipo do livro que voc vai querer rler quando tiver a idade de seu irmo mais velho,
do seu tio ou de seu pai, para voltar aos cenrios sombrios percorridos por Ruth e Jlio e reviver, uma a uma, minuto a minuto, as terrveis emoes que sofreram
durante infinitas doze horas.
0 pesadelo vai comear.
a
Marcos Rey
DOZE HORAS DE TERROR
LIVRARIASI CURITIBA
Lojas: Av. Luiz Xavier, 78
Av. Getlio Vargas, 651 Rua Presidente Faria, 175 Rua XV de Novembro, 870 Rua Marechal Deodoro, 275 Rua Voluntrios da PAtrla, 205
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